A existência de um Inferno eterno contradiz a Misericórdia Divina?

André Messias

É um argumento recorrente entre neo ateus e alguns ditos ” católicos ” que a eternidade do inferno é algo que não faz sentido, para a noção de um Deus Misericordioso, que exista um Inferno Eterno para onde os ímpios iram por toda a Eternidade. Esse argumento é falacioso e não leva em conta que Deus, em sua Absoluta Simplicidade, É Justiça e É Misericórdia. Vamos dividir essa explanação em três pontos. Primeiro, faremos uma pequena parábola para demonstrar como o Inferno não contradiz a Bondade Divina. Segundo, colocaremos um texto de São Leonardo de Porto Maurício que fala sobre como Deus age para Salvar as Pessoas. Por Fim, colocaremos um texto do Padre Garrigou La Grange sobre a Misericórdia e a Justiça em Deus.

1- Parábola do Médico e do Paciente Imaginemos que em uma determinada ocasião um paciente chega no consultório de um médico com uma doença crônica que pode ser fatal. O Médico olha os exames e diz ” será necessário você tomar a medicação prescrita e mudar seus hábitos de vida caso contrário você morrerá “. O Paciente ouve, mas faz pouco caso e acaba mantendo sua vida sedentária e ignorando a medicação. O médico, porém, insiste ” por favor! Veja como seu estado está se agravando tudo que lhe digo é racionalmente comprovado! você está trocando sua cura por esse prazer” . O Paciente Ignora e mantém sua vida normal que acaba levando-o a ficar internado num hospital. O médico tenta uma última vez dizendo ” ainda há chance! Tome a medicação e comece a mudar de vida ou você morrerá” . O paciente ignora e acaba morrendo em seguida. A pergunta que fazemos é teve o médico culpa da morte do paciente? O médico deixa de ser bondoso por sua morte? Obviamente que não. Considerando que a Graça Santificante oferecida por Deus nos possibilita sermos participantes da Vida Divina e nos assegura um Bem Eterno é algo lógico que ao negá-la até o fim teremos uma Morte Eterna. Deus não tem culpa se o homem se mantém no seu pecado até sua ruína, mas se isso não basta vamos ver o que um Santo Diz do Assunto

2- São Leonardo e a Vontade Salvífica de Deus

São Leonardo de Porto Maurício em seu livro ” o Pequeno número dos que são Salvos” aborda a questão da salvação defendendo sua tese de que a larga maioria das pessoas se condena- não recomendamos o livro para os que sofrem de escrúpulos. No meio do Livro chega a um ponto que ele se propõem a provar como sua tese não contradiz a Bondade de Deus. O Santo Diz, citando Santo Agostinho o Doutor da Graça, o seguinte:

Peguemos em primeiro lugar por base essas duas verdades incontestáveis: ‘Deus quer que todos os homens se salvem’. ‘Todos tem necessidade da graça de Deus’. No entanto, se eu vos demonstro que Deus tem a vontade de salvar todos os homens, e que por isso Ele lhes dá, a todos, Sua graça, com todos os outros meios necessários para obter esse fim sublime, vós sereis forçados a concordar que quem quer que se condene deve a responsabilidade à sua própria malícia, e que, se o maior número de cristãos são reprovados, é porque eles querem. ‘Tua perda vem de ti; em Mim está somente o seu seguro’ Que Deus tenha verdadeiramente vontade de salvar todos os homens, Ele nos declara em cem lugares dos livros santos. ‘Eu não quero a morte do pecador, mas antes que ele se converta e que ele viva. Eu vivo, diz o Senhor, eu não quero a morte do ímpio – convertei-vos e vivei’. Quando alguém deseja muito uma coisa, dizemos que ele morre de desejo, é uma hipérbole. Mas, Deus quis, e quer ainda, tão fortemente a nossa salvação que Ele por ela morreu de desejo, e Ele sofreu a morte para nos dar a vida: ‘et propter nostram salutem mortuus est’. Essa vontade de salvar todos os homens não é, pois, em Deus, uma vontade afetada, superficial e aparente, é uma vontade verdadeira, efetiva e benfeitora, pois Ele nos fornece todos os meios mais perfeitos para nos salvar, Ele nos dá, não para que eles não tenham então seu efeito ou porque Ele quer que eles não tenham; mas Ele nos dá com uma vontade sincera, com a intenção de que elas obtenham seus efeitos e, se eles não o obtém, ele se mostra aflito e ofendido. Ele ordena aos reprovados a que eles mesmos empreguem a obra de sua salvação, Ele para isso os exorta, para isso os obriga, e, se eles não fazem, eles pecam. Eles podem, pois, o fazer e assim se salvarem.Bem mais, Deus, vendo que sem Sua ajuda nós não poderíamos mesmo nos servir de Sua graça, nos dá outros socorros e se eles ficam algumas vezes ineficazes, a culpa disso é nossa, porque com esses mesmos socorros, in actu primo, como dizem os teólogos, com esses mesmos socorros no qual um o abusa e com os quais ele se condena, um outro pode fazer o bem e se salvar; ele o poderia mesmo com socorros menos poderosos. Sim, pode acontecer que um abuse de uma graça maior e se perca, enquanto outro que coopera com uma graça menor se salve.’Se, pois, alguém se afasta da justiça (santidade), exclama Santo Agostinho, ele é arrebatado por seu livre arbítrio, incitado por sua concupiscência, enganado por sua própria persuasão. Mas para aqueles que não escutam a teologia, aqui está o que eu tenho a dizer-lhes: Deus é tão bom que, quando Ele vê um pecador correndo para sua perdição, Ele corre atrás dele, chama-o, suplica-lhe e o acompanha até as portas do inferno; e o que não faz Ele, então, para o converter? Ele envia-lhe boas inspirações, santos pensamentos, e, se ele não aproveita, Ele se zanga, se indigna, e o persegue. Vai Ele ferir-lhe? Não: Ele deixa isso de lado, e o perdoa. Mas o pecador não se converte ainda: Deus envia-lhe uma doença mortal. Tudo está acabado para ele, sem dúvida. Não, meus irmãos, Deus o cura; o pecado se obstina no mal, Deus procura na Sua Misericórdia algum novo meio; Ele lhe dá ainda um ano, e, o ano acaba, e aceita dar ainda um outro. Mas se, malgrado tudo isso o pecador quer se lançar no inferno, que faz Deus? O abandona? Não: ele o toma pela mão, e enquanto ele tem um pé no inferno e outro fora, ele o exorta ainda, e suplica-lhe a não abusar de Suas graças. No entanto, eu vou pergunto, se esse homem se condena, não é verdade que ele se condena contra a vontade de Deus e porque ele que se condenar?’Venham dizer-me agora: se Deus queria me condenar, por que colocou-me Ele no mundo?… – São Leonardo de Porto Maurício, o Pequeno Número dos que São Salvos

Portanto, não é dá culpa de Deus que o pecador se condena, mas dele próprio. Deus ao ver o estado do Pecador se sente constrangido, nas Palavras de Santo Afonso, a aplicar a sua Justiça nos Reprobos. Deus não quis a Condenação de nenhum dos Repróbos nem mesmo de Lúcifer. Se os Anjos e homens foram condenados foi por sua própria responsabilidade. Claro que com isso não queremos resolver todo o problema do mal. O que nos leva ao Último tópico.

3- Relação entre Justiça e Misericórdia em Deus

Diz o Padre Garrigou La Grange:

Antes de receber a visão beatífica, nenhuma inteligência criada pode compreender o acordo destes dois princípios [ Justiça e Misericórdia Divinas] . Penetrá-lo equivaleria a entender de que maneira, sem distinção real [in re], se unem e se identificam a Justiça infinita, a Misericórdia infinita e a Liberdade soberana na Deidade, na vida íntima de Deus, no inefável d’Ele […]. Para entender o íntimo acordo dos princípios de que vimos falando, seria preciso ver a essência divina [que, como dito, não se pode ver senão pela luz da glória, pela deiformação do intelecto]. Quanto mais evidentes são para nós os dois princípios que tentamos conciliar, mais obscura aparece, por contraste, com uma obscuridade translúcida, a eminência da vida íntima de Deus, na qual se unem”. A misericórdia e a justiça divinas não se conjugam intimamente senão na “luz inacessível em que Deus habita”.- Padre Garrigou La Granje  La Providence et la confiance en Dieu (Paris, Desclée de Brouwer, 1932).

Logo, não podemos ter certeza absoluta do motivo de Deus permitir o mal no mundo. Não sabemos exatamente porque esse ou aquele foram condenados sem chance de arrependimento e outro recebeu uma segunda chance etc. Mas sabemos de uma coisa. Deus nos Ama e quer o nosso bem. Só vai para o inferno quem quer. Só vai para o Céu quem Deus leva nos braços de Nossa Senhora. Se Deus permite o mal é para tirar um bem maior. Devemos ter confiança na sua Infinita Misericórdia junto de um Santo Temor. Sem cair na presunção, mas sem também entrar em desespero. Se atirando no Coração de Jesus. Até que , um Dia , possamos contemplar a Visão Beatífica no Céu.

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