Falácia da “educação do imaginário”, “eruditismo” e a má ficção

André Messias

Recentemente, começou a ficar muito popular uma forma de pensamento extremamente problemática. Essa forma diz que é necessário iniciarmos uma “educação do imaginário” para prosseguirmos na vida intelectual. Os propagadores dessa ideia,então, usam de um grande “eruditismo” para recomendar grandes clássicos da literatura para “desenvolver nossa imaginação” para, só depois, iniciarmos o desenvolvimento intelectual. Tal modo de pensamento lembra um pouco outro que prega um uso da ficção como forma de divertimento sem se atentar com cuidado ao seu conteúdo e, por vezes, ignorando a vida intelectual. Vamos mostrar aqui como essas duas formas de pensamento são equivocadas e, ao fim, traremos uma tentativa de solução.
Os sentidos internos
Iniciaremos falando dos sentidos internos, dos quais faz parte a imaginação, deixaremos aqui uma breve explicação sobre eles exposta pelo Professor Marcelo Andrade no seu artigo “televisão: um fast food envenenado para a alma”: “ São quatro os sentidos internos, segundo S.Tomás: sentido comum, imaginação, memória e cogitativa. a) Sentido comum. Por meio do sentido comum, o homem percebe a realidade de modo unificado. Ele recebe as imagens obtidas pelos sentidos exteriores compara-as e julga-as. S. Tomás ensina que o olho não distingue o branco do doce, quem faz esta distinção é o sentido comum. b) Imaginação Não basta receber as informações, é necessário retê-las. O ser sensitivo precisa percebê-las enquanto estiverem ausentes também. Esta é a função da imaginação, que abstrai as impressões para que sejam usadas no futuro. De acordo com S. Tomas é o ‘tesouro das formas recebidas pelo sentido’. c) Memória A fim de que as imagens não se percam é necessário existir um ‘arquivo’ onde possam ser armazenadas, este ‘arquivo’ é a memória. d) Cogitativa A cogitativa compara as informações armazenadas e pode criar novas situações. Ela prepara as imagens particulares fazendo-as mais perfeitas de conteúdo em potência para que sejam transformadas em ato (universal) pelo intelecto. O intelecto vai até os sentidos internos e abstrai ou extrai a sua essência (quididade)”. A imaginação, portanto, está relacionada com as impressões das formas sensitivas sendo algo que não temos domínio absoluto. Não podemos controlar nossa imaginação como controlamos nosso dedo, por exemplo, precisamos convencê-la “ politicamente” para parar de mostrar determinada impressão.
Educação do imaginário e o destronamento do intelecto
Diferente do que o mundo moderno afirma a visão dos Santos sobre a imaginação era bem rígida. S. Antonio Maria Claret dizia: “Procura sempre tê-la ocupada (a imaginação) em pensamentos úteis e proveitosos, cuidando com toda a diligência evitar os maus pensamentos; porque se os deixares entrar uma vez, não poderás depois lançá-los fora tão facilmente”. Santa Tereza D’avilla dizia que ela era a “louca da casa” e vários Santos seguiram com essa mesma visão: a de que a imaginação precisa ser controlada e não exaltada. Todavia, com a revolução cultural dos anos 60 a Imaginação começou a ocupar o lugar de honra que deveria ser do Intelecto sendo exaltada ao extremo. Nas palavras de Albert Einstein- um dos grandes nomes do mundo moderno- “A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação circunda o mundo”. Qual a implicação disso? Simples a imaginação é o que há de pueril no homem. É aquilo que todos os animais também têm. Uma criança geralmente tem mais forte sua imaginação, mas quando começa a fazer uso da razão ela passa a superá-la e a amadurecer. Na sociedade atual, isso não ocorre e temos várias pessoas com mentalidade infantil que não conseguem raciocinar. Pessoas que baseiam sua vida e suas opiniões de mundo no que veem em obras fictícias como filmes de super heróis, novelas, séries etc. Ademais, como a imaginação não tem qualquer controle racional as maiores loucuras começam a ser praticadas. P essoas fazendo cirurgia para mudar de sexo, virar seres inumanos etc. Diante disso, cabe perguntar: é necessário uma educação do imaginário? Se essa educação significa a superação do imaginário e o domínio do intelecto parece que sim, mas o que vemos na realidade é algo bem diferente.
O Eruditismo e o mau entretenimento

Como solução a essa realidade alguns começaram a propor um “retorno aos clássicos da literatura”. Começa-se a ler esses clássicos para “educar o imaginário” e depois passa-se para as questões intelectivas e espirituais. Tal forma de pensamento é extremamente perigosa e mostraremos os motivos. Em primeiro lugar, essas obras por vezes trazem uma mentalidade pagã não fazendo qualquer referência a Deus ou aos Santos trazendo uma linguagem rebuscada e de difícil entendimento. A pessoa perderá horas, dias e, talvez, anos tentando compreender uma obra que, no fim, não a ajudará em nada a seguir o caminho da perfeição- que é o que mais importa. Em segundo lugar, por que perder tempo com essas obras pagãs se podemos ler a vida dos Santos? Sim, pois isso seria uma excelente forma de educação do imaginário! Além de serem histórias reais elas nos motivam no caminho da perfeição e nos estimula a imitar os Santos.Não há necessidade de ler todas as obras de Camões se posso ler logo Confissões de Santo Agostinho que irá agregar bem mais para minha vida e me ajudará a me tornar Santo. Em terceiro lugar, por que tenho que começar com esses clássicos e não com a doutrina e o conhecimento da Igreja? Vivemos uma crise doutrinal como nunca antes vista na história. Católicos nunca ouviram falar da doutrina do Reinado Social de Cristo, da Dupla Beatitude etc além de outras mais simples como a visão da Igreja em relação a contraceptivos. Perder tempo lendo leituras pagãs e “ clássicos “ num mundo em que o conhecimento doutrinal é essencial é arriscar perder a Fé! Concluímos dizendo que nada impede ler algum clássico da literatura ou algum outro entretenimento, contanto seja honesto, mas sem essa necessidade de ler vários para ai estudar. Isso, por vezes, na verdade, é estratégia de gurus que querem que seus seguidores não estudem a doutrina para então serem enganados por suas heresias. Mas e o uso do entretenimento para divertimento? Faremos algumas ponderações
O mau entretenimento
Outros argumentam que não procuram “educar o imaginário”, mas assistem entretenimento só para divertimento e passar o tempo. O problema é o tipo de entretenimento que assistem no mundo atual. Muitos recorrem a filmes fantasiosos de super heróis ou a desenhos japoneses chamados “animes”. Tais entretenimentos por vezes são ocasião de pecado- na verdade quase todos os animes, incluindo shounens, tem uma personagem claramente imodesta ou até coisas claramente imorais- as imagens contra o 6 mandamento produzidas por eles grudam como um grude em nossa mente e dificilmente saem. Se expor a ocasião de pecado já é em si pecado… Ademais, mesmo que não tenham isso, essas obras: 1- não trazem menção a Deus em momento nenhum acostumando nossa mentalidade a viver num mundo feliz sem Deus; 2- colocam como fim do homem algum sonho aqui na Terra sendo que o fim do homem, mesmo naturalmente, é Deus; 3- exaltam de forma exacerbada a Vontade colocando como se a força de vontade tudo pudesse vencer. Soma-se a isso as imagens aceleradas e os poderes fantasiosos que acabam estimulando a imaginação não o intelecto gerando uma mentalidade pueril em quem os assiste. Ninguém está dizendo que todas essas obras seriam pecaminosas – apenas as que tenham ocasiões de pecado-, mas não parece convir para um católico que busca a perfeição se aventurar nelas até pela sua própria maturidade enquanto pessoa.
Conclusão: um mundo temperamental
Quando somos crianças nossos temperamentos são mais aparentes em nós. Isso ocorre, pois não fazemos o uso da razão e, devido a isso, nossa natureza domina totalmente. Mas conforme amadurecemos, e desenvolvemos nosso caráter, o temperamento vai deixando de ser tão influente e começamos a amadurecer. O mundo atual, e mesmo os católicos atuais, escolheram a imaginação ao intelecto e com isso escolheram uma predominância do temperamento sobre o caráter. Temos pessoas com mentalidade extremamente pueril totalmente dominadas pelos defeitos do seu temperamento e longe da perfeição. A solução para o problema parece ser um maior combate e domínio de si buscando se aprofundar na doutrina, na vida dos Santos e em um bom entretenimento. Enquanto permanecermos no domínio do imaginativo não conseguiremos prosseguir na vida intelectual e seremos escravos das nossas impressões e dos nossos temperamentos. É necessário conhecermos a nós mesmos, combater nossas más inclinações e seguirmos caminhando no caminho da perfeição.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s