O Anticristo Protestante de Cris Macabeus

André Messias

Recentemente, gravamos um vídeo no canal TradTalk sobre o Livro de Apocalipse. No video, o Professor Nougué, com todo o seu conhecimento, expôs de forma clara a Doutrina da Igreja. O vídeo gerou a revolta do Youtuber católico “Cris Macabeus”, que tem uma visão preterista do livro do Apocalipse – visão que diz que as coisas preditas no livro se concluíram na destruição do Templo de Jerusalém. Nosso colega do canal Tradtalk, Tiago, escreveu um texto resposta ao sr Macabeus. Colocaremos aqui o texto e no final faremos alguns comentários:

“Há poucos dias atrás, o youtuber Cris Macabeus fez um vídeo tentando refutar a interpretação da Igreja de Jesus Cristo sobre o Apocalipse, o Anticristo e o fim dos tempos. A despeito da enorme quantidade de absurdos e ataques diretos ao ensinamento eclesiástico já consolidado, comentamos com cordialidade em seu vídeo nos seguintes termos:

Cris, com todo o respeito, a visão do senhor sobre o Anticristo (e sobre o Apocalipse) é totalmente protestantizada e nenhum santo ou doutor possui pensamento similar. É consenso unânime dos santos doutores (e, portanto, infalível, como diz S. Pio X) que o Anticristo é um indivíduo único que virá no fim dos tempos.

Infelizmente, me enganei ao acreditar que ele conversaria como um católico conversa com outro, e fui prontamente respondido com acusações de mentira e desonestidade. Nesse ponto, Cris Macabeus revelou que não somente não segue a interpretação da Igreja sobre o Anticristo, mas que também não age de acordo com seu ensinamento sobre a moral. Santo Tomás de Aquino nos diz que ‘é injuriar e desprezar a outrem o formar má opinião dele sem causa suficiente. Ora, ninguém deve desprezar a outrem ou lhe causar qualquer dano, sem causa que o obrigue. Portanto, onde não aparecem indícios manifestos da malícia de outrem, devemos tê-lo como bom, interpretando no melhor sentido o que é duvidoso.’ (ST, II IIae, q. 60, a. 4) Portanto, o sr. Macabeus peca e gera escândalo ao publicamente presumir o mau-caratismo de seu opositor ou invés de simplesmente presumir ignorância.

Logo na sequência, o sr. Macabeus gravou um vídeo de uma hora, onde ele fala muito, mas argumenta pouco. Além disso, ele gravou uma live de duas horas onde ele não argumenta nada de novo, mas o sr Robson fantasia situações que não ocorreram no vídeo – talvez por uma má interpretação dos dizeres do Nougué – afirmando que o Nougué deu-nos ‘invertidas’ [sic] na nossa live (nós até agora estamos procurando tais invertidas, mas só encontramos uma conversa amistosa comum). Ele também se equivocou sobre meus dizeres, porque, em certo comentário, eu disse que Macabeus errava ao não presumir que seu opositor está enganado ou é ignorante, mas o Robson entendeu que eu disse que eu não entendo de Apocalipse. Além disso, ele errou gravemente sobre a doutrina da Igreja, quando ele diz que afirmar que Enoque e Elias estão no Éden (visão de Santo Tomás e Santo Irineu) é heresia, já que supostamente crê-se que pessoas foram salvas antes de Cristo. No entanto, a definição de salvação é receber visão beatífica, coisa que eles não receberam. Por último, ele demonstrou não conhecer os escritos dos santos, já que disse que é absurdo crer que o Anticristo vai ser judeu, quando a vasta maioria dos Pais da Igreja e Contrarreformadores criam nisso. A essa live não responderemos para não rebaixarmos muito o nível. Responderemos somente ao primeiro vídeo em questão.

Podemos repartir o vídeo dele em 3 partes principais: uma onde ele alega que muitos Pais da Igreja e santos erraram na questão na questão do Anticristo e, agora, ele, Cris Macabeus, veio reformar toda a teologia católica já construída; outra onde ele mostra três passagens bíblicas que supostamente provam seu ponto de vista; e uma última onde ele supostamente refuta a afirmação de que é consenso unânime entre os santos, teólogos e doutores que o Anticristo é um indivíduo único. Analisaremos cada parte individualmente.

O palpite de Cris Macabeus e o ensinamento da Igreja

Qualquer católico com o mínimo de conhecimento sobre o assunto sabe que a teoria de Macabeus sobre Anticristo ser um espírito que influencia pessoas é totalmente estranha à teologia católica. A verdade cristã foi muito bem resumida pelo padre e PhD Joseph Pohle, autor de vários tratados dogmáticos:

Não pode haver dúvida que ele [S. João] acreditava em um Anticristo pessoal.’ (Eschatology: The Catholic Doctrine of the Last Things: A Dogmatic Treatise, p. 111)

Poderia ser objetado: então por que S. João fala de “anticristos” no plural em alguns trechos? Responde-nos o jesuíta:

[S. João disse em I Jo 2,18:] “Filhinhos, esta é a última hora; e, assim como vocês ouviram que o Anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora.” [Ou seja,] esse Anticristo pessoal é precedido por mensageiros que prepararão seu caminho e inaugurarão seu reino.’ (ibid)

E prossegue:

Evidentemente, o Anticristo predito por S. João não é somente um farsante, mas a antítese encarnada do Divino Salvador, e, portanto, seu mortal inimigo.’ (ibid)

S. Roberto Belarmino, tido por muitos como o mais importante autor e melhor patrologista da Contrarreforma, confirma essa visão: ‘Nós [católicos] acreditamos que tal como o nome de Cristo é concebido de duas maneiras, algumas vezes referindo-se propriamente à pessoa individual de Cristo, que é Jesus de Nazaré, e algumas vezes concernindo todos aqueles que possuem alguma similaridade com Cristo quanto à unção, como todos os profetas são ditos cristos [por exemplo, nos salmos 45 e 104, na versão da Septuaginta, aparece o termo Χριστός [Christos] para se referir a precursores do Messias]; também Anticristo é algumas vezes concebido como o certo inimigo específico e individual de Cristo, do qual muito ensina a Escritura, e algumas concebido como todos que se opõe à Cristo de alguma maneira.’ (De Sum. Pont., lib. 3) Ou seja, o termo “anticristo” pode ser utilizado para designar alguém que de certa forma prefigura o Anticristo, sendo inimigo de Cristo, mas também pode ser utilizado para referir-se ao Anticristo em si.

A Enciclopédia Católica, referência mundial sobre a doutrina católica, também é claríssima nesse ponto, pois em sua parte dedicada ao Anticristo, diz que: ‘A pessoa individual do Anticristo não será um demônio, como criam alguns antigos; nem será a pessoa do diabo encarnada na natureza humana. Ele será uma pessoa humana, talvez judeu…’

A mesma Enciclopédia ancora-se na autoridade o filósofo e teólogo escolástico Francisco Suárez S.J., uma das figuras mais proeminentes da Escola de Salamanca, para mostrar que, como diz o fundador da escola suarista, ‘é de fide que o Anticristo será uma pessoa individual’, ou seja, quem nega tal fato provavelmente pode ser considerado um herege.

Esse mesmo jesuíta escreveu 6 volumes em refutação ao anglicanismo repletos de argumentos negados por Cris Macabeus. No quinto volume, o jesuíta trata especificamente do Anticristo e, com toda sua erudição, refuta a opinião herética dos protestantes, que criam que haverá mais de um Anticristo. Diz o Doctor Eximius et Pius:

Hereges não acreditam que o Anticristo é um homem individual…’ (Def. Cath. Fidei, lib. 5)

‘A verdade católica e de fide certa é que o Anticristo, tomado de forma adequada ou antonomática, será um homem individual e um adversário particular de Cristo. Assim ensinam homens sábios católicos, que nesta época disputaram contra os hereges e trataram este ponto com grande cuidado e erudição. Isso pode ser facilmente provado da Escritura e dos Pais da Igreja.’ (ibid)

S. Roberto Belarmino também diz que, na época da Contrarreforma, a questão do Anticristo era um ponto fundamental de discordância entre católicos e protestantes. Diz ele: ‘Nós diferimos [dos protestantes] sobre o Anticristo propriamente quando consideramos se ele será um único homem. Todos os católicos acreditam que o Anticristo é um único homem específico; mas todos os hereges acima citados [Lutero, Illyricus, Chytraeus, Musculus, Beza, Bibliander, Pantaleon, etc.] ensinam que o Anticristo não é uma única pessoa.’ (ibid) Evidentemente, como o protestantismo não possui unidade, hoje já podemos observar que há protestantes que creem que o Anticristo é um único homem, mas, nas época da Deforma, o que diferenciava os católicos dos protestantes nesse quesito era justamente esse ponto. E Cris Macabeus, seguindo à risca a heresia dos reformadores, disse: ‘o que S. João prega? Que o Anticristo é um coletivo!… Não é só um! Não! São muitos!’ (minuto 22:06)

O mesmo S. Roberto, que, como já dito, é geralmente tido como o maior conhecedor de Patrística de seu tempo, afirma que podemos provar que o Anticristo é um só ‘pelos Pais da Igreja, que ensinam consensualmente sobre o Anticristo [neste aspecto].’ (ibid) E se esse era o consenso unânime dos Santos Padres, não podemos interpretar a questão contrariamente, pois diz o Concílio Vaticano I: ‘…a ninguém é permitido interpretar a Sagrada Escritura… contra o consenso unânime dos Santos Padres.’

O Cardeal Newman também registra que a visão de que o Anticristo será uma pessoa é a visão católica, enquanto as outras visões (como a visão sustentada pelo sr. Macabeus) são visões protestantes.

Ainda podemos acrescentar o V Concílio de Latrão, que diz ‘Não se deve pregar ou declarar um tempo fixo para males futuros, como a vinda do Anticristo ou o Dia do Julgamento.’ Por conseguinte, é indubitável que o ensinamento de Cris Macabeus é estranho ao Magistério da Igreja. Também cai aqui automaticamente sua acusação caluniosa e difamatória de que nossa visão do Anticristo é protestante.

[Obs.: É proibido afirmar saber a data da vinda do Anticristo. Ela permanece oculta para nós. Só sabemos que ela será junta com o fim dos tempos.]

O palpite de Cris Macabeus e a Sagrada Escritura

O sr. Macabeus alegou múltiplas vezes que estava lá para pregar o Anticristo segundo S. João, não segundo os santos – tal como os hereges protestantes afirmam a todo momento que pregam a Palavra, não o ensinamento dos santos, como se houvesse alguma dicotomia. Ele afirmou ser capaz de mostrar pelas Escrituras que os santos doutores católicos estavam errados. É recorrente em seu vídeo dizeres do tipo: ‘Vai reclamar com João! Eu prego o Apocalipse e o Anticristo de João, não de tal ou tal santo!’ Interessante a similaridade dos dizeres de Macabeus com os de protestantes, não?

Para iniciar, Cris Macabeus faz uma confusão enorme sobre a interpretação de 2 Tessalonicenses, a qual irei explicar brevemente aqui. Todos os autores católicos que analisaram tal passagem compreenderam ela como fazendo referência ao Anticristo. Aqui listo S. João Crisóstomo, S. Roberto Belarmino, Sto. Tomás, S. Vicente Ferrer, Francisco Suárez, etc. Ninguém jamais interpretou a Escritura como o ‘mistério da iniquidade’ como sendo algo que não é relacionado ao Anticristo.

Neste ponto, com toda sua fidelidade à interpretação do herege protestante Beza, objeta o Macabeus: mas Paulo diz que o mistério da iniquidade já estava em ação (2 Ts 2,7)! Aqui deixo a resposta de S. Roberto Belarmino a essa objeção protestante: ‘Respondo ao argumento de Beza: no tempo dos apóstolos, o Anticristo já vivia secretamente, entretanto não em sua própria pessoa, mas em seus precursores, tal como Cristo começou a vir desde a origem do mundo nos patriarcas e profetas (que vieram antes dele e significavam ele, de maneira que podemos dizer que o mistério da santidade havia começado a operar desde o início do mundo). Ele não veio em sua própria pessoa até o momento em que tomou carne da Bem-aventurada Virgem Maria. De maneira similar, o Anticristo começou a vir em seus precursores pouco depois que Cristo foi assunto aos céus, e o Mistério da Iniquidade começou a operar nos hereges e tiranos perseguidores da Igreja; especialmente em Simão Mago, que se dizia Cristo, e em Nero [obs.: muitos dos Pais da Igreja falavam que o mistério da iniquidade agia pelas perseguições de Nero], o primeiro a se opor à Igreja. Mas ele não virá em pessoa até o fim dos tempos.’ (De Sum. Pont., lib. 3)

Assim, a passagem de 2 Ts nos diz que o Anticristo é ‘o homem da iniquidade, o filho da perdição,o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus.’ (2 Ts 2,3-4) Não resta dúvidas que isso é um homem. Nada poderia ser mais claro.

Pouco mais adiante, S. Roberto cita Sto. Agostinho, Teodoreto, Sto. Ambrósio, S. Jerônimo e S. João Crisóstomo para provar que essa era a visão da Igreja dos primeiros séculos sobre a passagem.

O sr. Macabeus, depois, cita 1 Jo 2,18-29. Neste ponto, ele se utiliza da objeção dos infiéis maometanos que dizem ‘Jesus diz a todo momento que ia em breve (Ap 22), mas ainda não voltou.’ Santo Tomás lhes responde com o Salmo 89,4: ‘Mil anos são a teus olhos como o dia de ontem, que passou.’ Portanto, não é contraditório que S. João tenha escrito que esta é a última hora. Qualquer coisa que o Macabeus objete contra isso, ele dá razão aos sarracenos e contraria o Doutor Angélico. Interessantemente, tal passagem refuta a noção de Macabeus, pois, como diz S. Roberto:

Em 1 Jo 2, lemos o seguinte: ‘ἠκούσατε ὅτι ἀντίχριστος ἔρχεται, καὶ νῦν ἀντίχριστοι πολλοὶ γεγόνασιν: vocês ouviram que o Anticristo está vindo, e agora há vários anticristos’. Lá, o apóstolo põe um artigo definido antes de Anticristo’ (ibid)

Ao que comenta Ryan Grant, seu tradutor para a língua inglesa:

Esclarecendo àqueles que não sabem grego: … No grego, quando não há um artigo definido antes de um substantivo, normalmente significa UMA coisa da espécie, não A coisa, exceto no caso de um predicado nominativo (verbo de ligação) o qual é chamada posição de atribuição. Portanto, por posicionar um artigo definido antes da palavra, está se identificando um único Anticristo…’

Depois, Macabeus inicia um show de horrores. Ele diz ‘S. João fala que os anticristos saíram de nós, da Igreja, mas não eram dos nossos, e depois que o anticristo é aquele que nega que o Filho de Deus se encarnou! Não concorda com isso vai questionar S. João!’

Ele e os amigos dele, na live que fizeram posteriormente, repetiram esse argumento múltiplas vezes, como se fosse um argumento matador. Como já expliquei, o nome ‘anticristo’ pode ser utilizado tal como o nome ‘cristo’, ou seja, se aplicando tanto a alguém que prefigura o messias quanto ao próprio messias. Caso se negue isso, deve-se aceitar que Jesus estava encarnado desde a época de Davi, já que os salmos fazem referência a ‘cristos’.

Com o que foi dito acima em mente, não será difícil que compreendamos o último texto do sr. Macabeus, que diz: ‘Caríssimos, não queirais crer em todo o espírito, mas examinai os espíritos se são de Deus; porque muitos falsos profetas vieram para o mundo. Nisto se reconhece o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne, é de Deus; e todo o espírito que não confessa Jesus, não é de Deus; mas este é o espírito do Anticristo, de cuja vinda tendes ouvido e agora já está no mundo.’ (1 Jo 4,1-4) Macabeus fala ‘ele disse que já está no mundo!’ Sim, ele disse que o espírito do Anticristo estava no mundo desde aquela época, porque o mistério da iniquidade já estava em ação, mas, como disse S. Roberto, ele estava mediante seus precursores, não em pessoa. Este é o espírito do Anticristo: a influência diabólica exercida sobre os que prefiguram ele. Confirmando essa visão, a tradução da Vulgata do Pe. Matos Soares, a única com aprovação oficial da Santa Sé, traz como nota: ‘… agora já está no mundo (por meio de seus precursores).’

Temos aí respondidos todos os textos do sr. Macabeus.

O palpite de Cris Macabeus contra todos os santos doutores

Antes de tudo, é necessário deixar claro que o sr. Macabeus se utilizou de um espantalho contra meu argumento. Eu disse ‘todos os santos doutores’, e o Macabeus argumentou como se eu houvesse dito ‘todos os cristãos dos primeiros séculos.’ Isso revela alto grau de desonestidade.

Isso à parte, Macabeus expôs três textos para tentar refutar minha afirmação. O primeiro é de S. Jerônimo, que diz em seu comentário a Daniel que muitos pensavam que Nero era o Anticristo. No entanto, o próprio S. Jerônimo não partilhava de tal visão, como se evidencia do seguinte texto: ‘…o Anticristo se sentará no Templo de Deus…’ (Quaest. 11 ad Algasiam) Portanto, S. Jerônimo não tomava o partido do sr. Macabeus. E mesmo que esses indivíduos que criam que Nero foi o Anticristo significassem algo, eles ainda não partilhavam da visão do Macabeus, que acha que o ‘Anticristo’ é um coletivo, ou um espírito influenciador de um coletivo. Nenhum santo doutor concordando com o palpite de Macabeus por aqui.

O segundo é de Santo Agostinho, que em De Civilitate Dei diz que alguns criam que a declaração de que ‘o mistério da iniquidade já opera’ se referia a Nero e que alguns criam que ele era o Anticristo. Como já dito, sim, muitos criam que a operação do mistério da iniquidade eram as perseguições de Nero, mas essa opinião pode ser sustentada sem crer que ele era o Anticristo (como já explicado acima). Quanto aos que criam que Nero era o Anticristo, a situação é a mesma de S. Jerônimo, porque, como reconhece o próprio Macabeus, Sto. Agostinho cria o Anticristo ainda viria (cf. De Civ. Dei, lib. 20,21). Aqui também não há nenhum santo doutor que creia tal como Macabeus, temos somente mais um que crê como a Igreja Católica.

A citação de S. João Crisóstomo não é nada diferente. O Boca de Ouro disse que ele cria que a operação do mistério da iniquidade que já ocorria eram as perseguições de Nero e que este era uma espécie (prefiguração) do Anticristo. Ou seja, S. Crisóstomo cria que Paulo se referia às perseguições quando falava da operação do mistério da iniquidade (opinião que eu mesmo partilho e acho ser a mais provável). Não obstante, ele próprio afirmava que o Anticristo ainda estava para vir:

‘Mas quem é ele [o Anticristo]? Então é Satanás? De jeito nenhum; mas um homem, que admite estar trabalhando plenamente nele… ‘E se exalta contra tudo o que se chama Deus ou é adorado.’ Pois ele não introduzirá idolatria, mas será uma espécie de oponente de Deus (άντίθεоς); ele abolirá todos os deuses e ordenará que os homens o adorem em vez de Deus, e ele estará sentado no templo de Deus, não apenas em Jerusalém, mas também em toda igreja. “Apresentando-se”, diz ele; ele não diz dizendo, mas se esforçando para mostrar. Pois ele fará grandes obras e mostrará sinais maravilhosos.’ (Hom. 3, in 2 Ts 1,9-10)

Mais uma vez, nenhum santo doutor por aqui crendo como Macabeus.

No final, Macabeus claramente falhou em mostrar um único santo doutor que interprete o Anticristo como um espírito que influencia um coletivo. A visão do Macabeus é absolutamente estranha à teologia dos santos doutores e não pode ser coerentemente defendida sem recurso ao Sola Scriptura.

Conclusão

Por fim, agradeço enormemente ao meu caro amigo André por me conceder este espaço para falar em seu blog. É uma honra para mim poder explicar por aqui a verdade que nos foi transmitida pela Tradição, guardada e ensinada pelo Magistério e presente nas Escrituras. Todos esses elementos nos dizem com clareza que o Anticristo será um só indivíduo que virá pouco antes do fim dos tempos e cujos precursores já operavam na época dos apóstolos. Eis o mistério da iniquidade. Eis o ensinamento eclesiástico.
Infelizmente, contra isso age Cris Macabeus, que nos apresenta uma novidade teológica, estranha ao ensinamento dos santos, externa ao dito nos concílios, contrária às Escrituras. Como disse Santo Agostinho nas Retratações, dentre essas duas opiniões, escolha o leitor aquela que lhe parecer mais provável.

Por Jesus Cristo, Senhor Nosso,

Tiago Lefebvre”

Gostaríamos de fazer duas observações ao texto do Tiago.


Primeiro, é interessante notar como Macabeus usa o método histórico crítico para interpretar as Escrituras. Esse método consiste em interpretar as Escrituras Sagradas se libertando de “premissas dogmáticas” e adotando a razão como principal critério de avaliação do texto bíblico. Esse método encontra raízes no protestantismo, onde Lutero dizia que a interpretação da Bíblia devia ser feita não pelo Magistério ou pelos Santos Padres, mas que as partes mais fáceis de compreensão da Escritura deveriam ser a luz para interpretar as mais difíceis. O método histórico crítico chega ao extremo de negar os milagres Bíblicos por contrariar, aparentemente, a razão. Macabeus não chega a esse ponto, mas evidentemente segue essa linha de interpretação. Algo do tipo “não interessa o que os pais da Igreja disseram porque eu hoje, com os conhecimentos que tenho, descobri a forma certa”. Tal pensamento é deveras presunçoso, quer o sr. Macabeus perceba ou não. Ora, se Santo Tomás e São Roberto, Doutores da Igreja, defendiam um Anticristo pessoal baseado nas Escrituras e uma visão futurista do Apocalipse porque eu, ou o sr. Macabeus, que somos muito maia burros e pecadores que eles, temos que duvidar? É uma visão que pressupõem um evolucionismo e contraria a visão da Igreja.

Segundo, falar que dizer que Elias e Enoque estão no Éden é heresia é colocar como hereges grande parte dos Santos da Igreja. Citamos alguns:


Escreve Santo Tomás na Suma Teológica Parte III, questão 49, artigo 5, objeção 2:


“…parece que Cristo, com sua Paixão, não nos abriu as portas do céu: Antes de ocorrer a Paixão de Cristo, Elias foi arrebatado ao céu, como está escrito em 2Reis 2,11. Pois bem: então o efeito não precede a causa. Logo, parece que a abertura das portas do reino celeste não é efeito da Paixão de Cristo. [À essa objeção,] respondo: Elias foi arrebatado para o céu aéreo, não para o céu empíreo, que é a mansão dos bem-aventurados. Do mesmo modo, Henoc foi levado para o paraíso terrestre, onde se crê que, juntamente com Elias, viverá até que ocorra a vinda do Anticristo”.


Por “céu aéreo”, portanto, entende São Tomás o próprio paraíso de Adão e Eva, paraíso este removido pelo Senhor para alguma parte desconhecida do céu, logo após a expulsão dos nossos primeiros pais (v. Gênese 3,23-24).


São Tomás se fundamenta, assim, no entendimento dos mais antigos, como Santo Ireneu de Lião, que escreveu no século II:


Henoc agradou a Deus mesmo sem circuncisão e, sendo homem, foi embaixador junto aos anjos: foi levado e permanece até hoje testemunha do justo juízo de Deus, pelo fato de que os anjos transgressores caíram no juízo e o homem que tinha agradado a Deus foi levado à salvação” (Contra as Heresias 4,16,2).


E, detalhando mais ainda:


Henoc, que agradou a Deus, foi transferido naquele mesmo corpo com que agradou a Deus, prefigurando a transladação dos justos (=referência a 1Pedro 3,19); e Elias foi levado, assim como se encontrava, na substância de sua carne, prenunciando profeticamente a assunção dos homens espirituais; o seu corpo não impediu em nada a sua transladação e assunção por Aquelas Mãos que no princípio os plasmou foram assumptos e transferidos. As mãos de Deus estavam acostumadas com Adão a unir, sustentar e levar a obra plasmada por elas, a transportá-la e situá-la onde queriam. Onde foi posto o primeiro homem? No paraíso, sem dúvida, como diz a Escritura (…) E foi de lá que foi expulso para este mundo, por ter desobedecido. E os presbíteros, discípulos dos Apóstolos, dizem que foi para lá que foram levados os que foram transferidos” (Contra as Heresias 5,5,1).

Portanto, se o sr. Macabeus quiser fazer algo sério, que espere o Livro que o professor Nougué lançará sobre apocalipse e o refute. Só esperamos que ele se embase mais nos Pais da Igreja e no Magistério como um bom católico deve fazer ao invés de usar de interpretação pessoal e moderna.

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