É possível haver “santos” cismáticos?

André Messias

Diante de nossas publicações contra o Herético e Cismático Gregório de Palamas, um dos Uniatas- embebido de ecumenismo conciliar- levantou a seguinte questão: “uma pessoa seguindo de boa fé sua Religião pode ser salva”. Tal argumento veio para tentar defender a Santidade do herege Palamas. Isso nos leva a uma indagação: é possível haver Santos Cismáticos? Obviamente a resposta é não, mas analisemos a fundo.

  • Afirmações Magisteriais contra a Salvação de cismáticos- mesmo em casos de martírio.

Comecemos com a Declaração do Papa Eugênio IV, afirmando o Dogma Extra Ecclesiam Nulla Salus:

Papa Eugénio IV (1442) – Concílio de Florença Infalível

“A Santíssima Igreja Romana crê firmemente, professa e prega que nenhum dos que existem fora da Igreja Católica, não só pagãos como também judeus, heréticos e cismáticos, poderá ter parte na vida eterna; mas que irão para o fogo eterno ‘que foi preparado para o demónio e os seus anjos,’ (Mt.25:41) a não ser que a ela se unam antes de morrer; e que a unidade deste corpo eclesiástico é tão importante que só aqueles que se conservarem dentro desta unidade podem aproveitar-se dos sacramentos da Igreja para a sua salvação, e apenas eles podem receber uma recompensa eterna pelos seus jejuns, pelas suas esmolas, pelas suas outras obras de piedade cristã e pelos deveres de um soldado cristão. Ninguém, por mais esmolas que dê, ninguém, mesmo que derrame o seu sangue pelo Nome de Cristo, pode salvar-se, a não ser que permaneça no seio e na unidade da Igreja Católica”

Note que o Papa Eugenio IV, em documento infalível, esclarece que ainda que o cismático derrame seu sangue por Cristo ele não poderá se salvar se não permanecer na unidade da Igreja Católica. Isso é um Dogma infalível da Igreja; não é possível haver Mártires ou Santos em cisma. O Papa Bonifácio VIII afirma algo similar na sua Bula Unam Sanctam- que também é infalível

“Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice.”

A santidade é algo que só existe na Igreja de Cristo. Todavia, de fato, nem todos que se salvam pertencem a ela fisicamente.

  • Doutrina do Batismo de Desejo

Existe também uma outra realidade chamada de “Batismo de Desejo”; essa Doutrina é defendida pela Igreja em vários lugares, entre eles no catecismo Romano que diz:

“Essa demora (em Batizar recém nascidos), porém, não envolve o mesmo perigo que ameaça as crianças pequenas, como dizíamos há pouco. Tratando-se de pessoas já em uso da razão, a firme vontade de receber o Batismo, unida ao arrependimento das faltas da vida anterior, é quanto basta para conseguirem a graça da justificação, se sobrevier algum acidente repentino, que as impeça de receber a ablução sacramental.” Do Batismo, §35

É Válido lembrar que o Papa Clemente XIII declarou a 14 de junho de 1761 na sua Dominico Argo que o Catecismo Romano “está livre de todo perigo de erro.” O concílio de Trento também diz:

“Depois da promulgação do Evangelho, não pode dar-se [a justificação do ímpio] sem o lavatório da regeneração [Cânon 5, sobre o Batismo] ou por seu desejo, conforme está escrito: ‘Se alguém não tiver renascido pela água e pelo Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus”‘( Jo. VIII, 5) (Denzinger, 796).

Então essa é uma realidade doutrinal da Igreja. Esse Batismo de desejo pode ser explícito, quando a pessoa tem a intenção de se Batizar, ou implícito. O Batismo de Desejo implícito ocorre quando alguém, sem culpa grave, não teve informações sobre a Igreja e está em um estado de ignorância invencível. Nesse estado, a pessoa pode se salvar seguindo a Lei Natural que ela pode abstrair da natureza. Alguns Preceitos — como não matar, não adulterar etc — são da Lei Natural e, por isso, todo o homem pode percebê-los na natureza. O Batismo de Desejo implícito é um resultado lógico de Deus ter submetido o fim natural do homem ao Sobrenatural e é uma realidade que existe, mas que é muito manipulada nos dias de hoje. Nesse caso a pessoa seria salva APESAR de sua falsa religião e não DEVIDO a ela. Ela seria parte, espiritualmente, da Igreja, não estando fora dela. Essa realidade é adulterada por muitos dos modernistas e, dentre eles, um dos piores é Karl Rahner.

  • As teoria dos “ cristãos anônimos” e o verdadeiro Batismo de Desejo implícito

Usando essa Visão do Batismo de desejo implícito como base, o “teólogo” modernista Karl Ranher criou sua teoria dos “cristãos anônimos”. Onde nas falsas Religiões haveriam “cristãos anônimos” de boa fé e que esses iriam se salvar permanecendo nelas. Essa visão é contrária à Fé católica e é baseada nela que muitos Uniatas — levados pelo ecumenismo conciliar — defendem Palamas. Tal teoria é absurda por no mínimo três pontos. Primeiro, os pagãos sem Batismo ou hereges e cismáticos conscientes não tem a Graça Santificante que é o que permite a vida de Deus na Alma. Isso se mostra pelo Documento do Papa Eugenio IV. Ora, sem a Graça Santificante a pessoa torna-se um membro morto e não pode lucrar méritos para a vida eterna. Segundo, a Fé é uma Virtude que ou você tem tudo ou não tem nada. Se você nega um só preceito da Fé, por menor que seja, você não pode ser Santo, pois um Santo não pode errar contra a Fé. Casos como de Santo Tomás — que negou por certo tempo a Imaculada Conceição — ocorrem apenas quando os Dogmas ainda não estão definidos ou quando o verdadeiro pensamento da Igreja não está claramente demonstrado, algo bem diferente de um cismático e de um herege. Terceiro, o Batismo de Desejo implícito trata-se de uma EXCEÇÃO, não de uma Regra. Devido ao pecado Original é muito fácil cairmos no pecado mortal ,ao violar a Lei Natural, se não tivermos os Sacramentos válidos e lícitos da Santa Igreja Católica, o que torna uma Salvação por Ignorância invencível ou Batismo de Desejo implícito algo muito difícil. O Papa Pio IX condenou essa tese da facilidade da salvação dos que morrem afastados da Igreja de Cristo no Syllabus:

17º Pelo menos deve-se esperar bem da salvação eterna daqueles todos que não vivem na verdadeira Igreja de Cristo.( tese condenada)Aloc. “Singulari quadam”, de 19 de Dezembro de 1854. Enc. “Quanto conficiamur”, de 17 de Agosto de 1863.

Não devemos esperar bem da Salvação Eterna dos que morrem fora da Igreja. Se fosse algo tão fácil se Salvar em falsas religiões, então as ações dos missionários seriam inúteis ou, até, prejudiciais, pois, se é fácil se salvar por ignorância invencível, então levar a verdadeira Fé aos Povos e esclarecer todos os Preceitos Divinos só tornaria mais difícil a Salvação das Almas. Ademais, ignorância invencível é uma exceção que só Deus sabe quando ocorre, não nos cabe dizer isso. Se um cismático que atacava a Igreja, a acusava de erro , contrariava o Papado e defendia doutrinas heterodoxas após a Definição dogmática — tudo isso como nós expusemos em nossos textos — pode ser Santo então até Calvino o pode ser! Ou Henrique VIII! Pois podemos dizer que eles “tinham boas intenções” e eram “cristãos anônimos” só por termos um apego sentimental por esses hereges. Evidentemente que, por terem os Sacramentos, o número de cismáticos que podem estar em ignorância invencível- e que alcançam a salvação apesar do cisma- talvez seja maior que o dos pagãos, mas ainda sim não devemos esperar bem da Salvação de suas Almas .Ademais, repetimos que Todos os que se salvam pela Ignorância invencível se salvam APESAR da sua falsa religião e não DEVIDO a ela. Por fim, gostaríamos de mostrar o exemplo de uma Santa que enriquecerá muito essa discussão.

  • O caso de Santa Josefina Bakhita
Santa Bakhita, Rogai por nós

Santa Josefina Bakhita nasceu numa Tribo animista africana do Sudão do Sul. Desde muito pequena, Bakhita deleitava-se em contemplar o Sol, a Lua, as estrelas e as belezas da natureza, perguntando-se maravilhada:

“Quem é o patrão destas coisas tão bonitas? E sentia uma grande vontade de vê-lo, de conhecê-lo, de prestar-lhe homenagem”.- DAGNINO, Ir. Maria Luísa, Bakhita racconta la sua storia. Trad . Cecília Maríngolo, Canossiana. Roma: Città Nuova, 1989.

É Sabido que o Fim Natural do homem é o de contemplar a Deus pelo espectro das criaturas, coisa que Santa Bakhita começara a fazer desde a tenra infância. Dentro da lógica de Ranher — e de alguns Orientais — ela poderia ter se salvado estando em sua falsa religião facilmente, sem precisar se converter visivelmente à Igreja. Deus, todavia, tinha outros planos para ela. Muito nova ela foi raptada por alguns bandidos que a venderam como escrava. Foi torturada por muitos de seus “patrões” e sua vida parecia uma série de tragédias:

“As chicotadas caíam em cima de nós sem misericórdia; de modo que nos três anos que estive a serviço deles, não me lembro de ter passado um só dia sem feridas, porque não havia ainda sarado dos golpes recebidos e recebia outros ainda, sem saber a causa. […] Quantos maus tratos os escravos recebem sem nenhum motivo! […] Quantas companheiras minhas de desventura morreram pelos golpes sofridos! ” – DAGNINO, Ir. Maria Luísa, Bakhita racconta la sua storia. Trad . Cecília Maríngolo, Canossiana. Roma: Città Nuova, 1989.

Essa história de tragédias começou a mudar quando ela encontrou um “patrão” generoso e lá Bakhita recebeu de um amável senhor, que se interessara por ela, um belo crucifixo de prata:

“Explicou-me que Jesus Cristo, Filho de Deus, tinha morrido por nós. Eu não sabia quem fosse […]. Recordo que às escondidas o olhava e sentia uma coisa em mim que não sei explicar”. Pouco a pouco, a graça foi trabalhando a alma sensível da ex-escrava africana, abrindo-a para as realidades sobrenaturais que ela desconhecia. DAGNINO, Ir. Maria Luísa, Bakhita racconta la sua storia. Trad . Cecília Maríngolo, Canossiana. Roma: Città Nuova, 1989.

Santa Bakhita iniciou seu processo de conversão até que pode receber seu Batismo. “Recebi o santo batismo com uma alegria que só os Anjos poderiam descrever”, narraria mais tarde. Ela então se virou religiosa e ficou até o fim da vida amando ao seu novo e Amado “Paron”, como ela chamava, que criou o Céu e a Terra e que fora flagelado e sofreu mais do que ela. Ao fim ela declara:

“Se eu encontrasse de novo aqueles negreiros que me sequestraram e também aqueles que me torturaram, me ajoelharia para beijar as suas mãos, porque, se não tivesse acontecido isto, eu não seria agora cristã e religiosa”.

Essa é a Verdade. Se tal fato não tivesse ocorrido talvez sua vida tivesse continuado na normalidade do convívio familiar, em meio aos afazeres domésticos e às práticas rituais do culto animista que professavam seus parentes. Provavelmente ela jamais conheceria a Fé Católica e permaneceria submersa nas trevas do paganismo e, provavelmente, iria ser condenada. Deus, para salvar essa alma tão querida, usou o mal dos homens. Essa história mostra que essa reles “intenção boa” não salva ninguém. Ainda que existam pessoas que sejam salvas pela ignorância invencível, são exceções. Toda a beleza da história de Santa Bakhita está justamente no fato de que, o mal feito pelo homem, serviu para salvar sua alma, pois a chance de Salvação dentro do animismo que vivia era mínima e lá, provavelmente, ela não alcançaria a salvação.

  • Conclusão
  • Concluindo, queremos dizer que não estamos colocando Palamas no inferno. Isso é assunto dele com Deus, mas podemos dizer sem dúvidas que ele não pode ser Santo reconhecido pela Igreja e, se se salvou, foi por Misericórdia de Deus, não por suas heresias e blasfemias, sendo temerário supor sua santidade. Palamas precisa de nossas orações — assim como Calvino e outros hereges também — para ver a Essência Divina na Visão Beatífica que ele negou.

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