É possível haver um “esoterismo cristão”? Uma resposta a esotéricos

Holy Trinity

André Messias Ferreira Lima Junior

“É possível existir um esoterismo cristão”, afirma um vídeo do canal de um suposto “maçom budista esotérico”. Para um católico essa pergunta pode não fazer muito sentido (já que a resposta é obviamente negativa), mas tal pensamento tem se tornado bastante comum em alguns círculos da nova direita. Perenialistas como Olavo de Carvalho e seu filho Luiz Gonzaga de Carvalho se valem dela — de forma clara ou velada — para atrair incautos e incutir neles este veneno pernicioso.

O que seria, afinal, esse esoterismo dito cristão? O esoterismo pode ser definido como um saber oculto e escondido que se opõem àquilo que é revelado “exotericamente”. Esse esoterismo prega que não podemos conhecer, com certeza absoluta, algo real de Deus pela Razão e que este conhecimento seria adquirido apenas por uma experiência mística individual. Além disso, eles pregam que todas as “manifestações externas” da Revelação — como as Escrituras e a Doutrina — seriam meros símbolos de realidades superiores que não podemos acessar com nossa razão. A conclusão disso é que Nosso Senhor não teria ensinado nenhuma doutrina; Ele apenas revelou símbolos deu um “testemunho” e as várias realidades bíblicas concretas — como a Cruz, a visita dos Reis Magos etc — seriam apenas manifestações exteriores de um saber oculto que não poderia ser acessado por vias ordinárias. Muitos, como René Guénon, extraem disso a chamada “Unidade Transcendental das Religiões” e o perenialismo. Tais ideias são absurdas e, como provaremos aqui, contradizem diametralmente a lógica e a Revelação. Dividiremos esse texto em três partes: explanação sobre a analogia do Ser e a refutação da ideia de que não podemos conhecer Algo verdadeiro de Deus pela razão; mostrar como a Encarnação do Verbo contradiz o Esoterismo e, por fim, um texto do Professor Orlando Fedeli mostrando a diferença entre a espiritualidade católica e a esotérica Budista- defendida pelo Autor do vídeo.

A analogia do Ser e o conhecimento verdadeiro de Deus

Antes de mais nada comecemos com a definição de analogia do Ser. O Católico James Larson a define dessa forma:

“Deus criou o homem à sua própria imagem. Portanto, o princípio fundamental da existência do homem, como em Deus, é o princípio do ser. Deus é Ser infinito, o homem é ser finito. Quem é o homem, é determinado por Deus criando sua forma ou essência substancial do nada. A essência do homem que encontramos expressa em sua natureza. E assim dizemos que o homem é criado à imagem de Deus porque possui uma alma espiritual com as faculdades do intelecto e da vontade. O objeto apropriado do intelecto é a verdade; a expressão mais alta da vontade é o amor. E aqui temos o que os teólogos católicos chamam de “a analogia do ser”, na qual o homem é criado com as faculdades e o destino de imaginar seu Deus que é verdade e amor.
Essa verdade é imensamente importante para entender o relacionamento do homem com Deus e a possibilidade de deificação. A essência de Deus não é totalmente incompreensível para o homem. A essência de Deus é transcendente, mas não remota. A analogia do ser nos fornece uma maneira de entender que existe uma relação íntima entre nossos valores mais elevados e quem é Deus. Também nos fornece, como veremos, a capacidade de entender que existe uma certa proporção (palavra de São Tomás) entre Deus e o homem, que é a base sobre a qual a Graça de Deus pode nos permitir ver e nos unir à Sua própria essência na visão beatífica” (James Larson, And Never The Twain Should Meet – The Orthodox-Catholic Divide)

Por meio da analogia podemos conhecer as Realidades Divinas e ter CERTEZA ABSOLUTA DELAS, como foi dito no Concílio Vaticano I:

“1806. Cân.1 – Se alguém disser que o Deus uno e verdadeiro, Criador e Senhor nosso, não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas – seja excomungado [cf. nº 1785].”

Isso acontece, como disse São Paulo, “porque as coisas invisíveis d’Ele, depois da Criação do Mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis; assim seu poder eterno e sua divindade; de modo que são inexcusáveis ” (Romanos 1,20).

Tendo Deus feito todas as coisas à sua imagem e semelhança, através das criaturas é possível conhecer, verdadeiramente, algo do Criador. As coisas do Mundo espelham a perfeição de Deus. Por isso São Boaventura diz que “Deus escreveu dois livros, a Bíblia e o Universo” (Brevilóquio II, V,2).

Em suma, por meio da analogia podemos conhecer de fato — e não só ter uma ideia — algo de Deus. Isso ocorre, pois, embora não possa compreender tudo, nossa Razão foi dada por Deus à nossa Natureza. Deus é Perfeição infinita, não pode criar algo defeituoso; logo, não poderia ter criado nossa razão defeituosa. Deus, muito menos, poderia ter corrompido nossa razão após o pecado, pois isso impediria nossa Natureza de alcançar seu fim sendo, portanto, um ato mal — e Deus não pode fazer o mal. Ao negar esse fato os esotéricos caem na ilogicidade e no absurdo.

A Encarnação do Verbo e o Esoterismo

Nosso Senhor sempre ensinou de forma pública, como Ele disse a Caifás quando foi questionado sobre a doutrina que Ele ensinava:

“O sumo sacerdote indagou de Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Jesus res­pondeu-lhe: ‘Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas'” (São João 18).

Isso ocorre pois a Revelação foi algo público e para todos os Homens, mesmo os mais pequenos:

“Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: ‘Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos.'” (São Mateus 11, 25)

A Revelação não é algo restrito a poucos iluminados — como acreditavam os Fariseus da época. Ela é algo público e para todos os homens. As Escrituras também são claras ao afirmarem que Cristo ensinou uma Doutrina :

“Maravilhavam-se da sua doutrina, porque as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (São Marcos 1)

E Ele ensinava tal Doutrina com sua autoridade e aqui chegamos no ponto central. Quando falamos da Encarnação do Verbo os esotéricos parecem esquecer que Jesus — o Verbo Eterno Do Pai — ao se fazer homem, vai se valer de uma linguagem humana igual a nossa para falar de coisas Divinas. Ora, se Ele se vale de uma linguagem humana para falar de coisas Divinas é porque há uma analogia entre aquilo que nossa linguagem significa ao falar e o que as coisas Divinas são. Exemplo: Jesus chama Deus de Pai; isso só é possível pois existe uma relação analógica real entre a paternidade humana e a Divina, senão não haveria linguagem. Deus não poderia ter criado o homem com uma razão capazde desenvolver uma linguagem — a partir da qual Ele se Revelou por Atos e Palavras — se essa Razão, que desenvolve e elabora uma linguagem, não fosse capaz de captar nas coisas aquilo que elas são e fazer uma analogia entre essas coisas temporais e as Eternas. Mais que “meros símbolos” os Evangelhos nos mostram fatos reais; uma doutrina Real, que deve ser seguida, e a Fundação de uma Igreja Real e Única, a Católica, para preservar esse depósito Doutrinal e levar a Salvação aos povos. A visão esotérica contradiz as próprias Escrituras que muitos dizem seguir.

Diferença entre a mística católica e a esotérica

Por fim, trazemos um texto do Professor Orlando Fedeli em seu livro “Antropoteísmo, a Religião do Homem” onde ele descreve bem a diferença da mística católica e a esotérica o texto é muito bom para mostrar quão distante está a espiritualidade católica da esotérica ou budista:

“No processo místico, isto é, no processo do amor da alma para com Deus, o grau supremo, a união com Deus, é denominada ‘casamento místico’.
O amor imenso no qual o verdadeiro místico se abrasa ao se unir a Deus
leva-o a ter todas as coisas como se fossem nada. Entretanto, ele não as despreza. Pelo contrário, em toda criatura, por mais humilde que seja, o místico vê reflexos dAquele que é a causa de toda existência e de todo bem.Veja-se, como prova disso, a atitude dos grandes místicos, como São Francisco, Santa Tereza, São João da Cruz, que amaram a Deus acima de tudo, mas que amaram também o irmão sol, a irmã água, o irmão vento. O verdadeiro místico não é um alienado. Ele não tem uma indiferença estóica ou budista diante das maravilhas da criação. A união com Deus não o afasta da realidade concreta. Pelo contrário, faz com que ele se volte mais viva e eficientemente para ela. Cremos que não há exemplo mais claro disso que Santa Tereza, a maior mística da história, e tão ativa! Ela foi vista, em pleno êxtase no ar, contemplando a Deus e, ao mesmo tempo, fazendo panquecas. Segurando a panela ao fogo e jogando as panquecas ao ar, para revirá-las, sem as deixar cair, mantinha-se em êxtase unida ao criador dos Céus e da Terra. O místico não despreza a carne e usa com toda inocência e santidade as imagens epitâmicas para descrever a união mística. Essa atitude equilibrada do místico diante da realidade espiritual e da realidade material, na aceitação humilde e agradecida da natureza espiritual e material do ser humano, levam-no a ter uma devoção especial para com o mistério da Encarnação no qual ‘Verbum carofactum est'”

Em suma, é ilógico desprezar as paixões totalmente e tentar abdicar da própria Natureza rumo ao Nada- como propõem o budismo. Nosso Senhor mesmo tinha Paixões. Ele demonstrou a Boa ira expulsando os Vendilhões do Templo, chorou com a morte de Lázaro isso sem falar da sua Agonia no Jardim das oliveiras e , ainda sim, continuou se declarando Deus. Uma passagem que mostra claramente isso está no Livro de Apocalipse:

“Ao vê-lo, caí como morto aos seus pés. Ele, porém, pôs sobre mim sua mão direita e disse: “Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, e o que vive. 18.Pois estive morto, e eis-me de novo vivo pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 1)

Ora “Primeiro e Último” é um título de Deus, mas logo em seguida é afirmado ” pois estive morto, e eis-me de novo vivo”. Morrer é uma característica humana. Essa passagem demonstra claramente a União Hipostática entre a Natureza Humana e Divina em Nosso Semhor. Nosso Senhor era Deus e, ainda sim, assumiu a Natureza humana e permanece com Ela por todos os Séculos dos Séculos no Céu. Isso demonstra que Nossa Natureza não é má o que é mal é a desordem nela as paixões desordenadas- resultantes do pecado Original que feriu nossa natureza, mas não a Degenerou completamente. A Mística católica, que é a mesma em substância desde a era dos Apóstolos, não propõem um abdicação da própria Natureza e sim um aperfeiçoamento dessa, pois como diz a máxima Tomista “A Graça não tolhe a Natureza, mas a aperfeiçoa”. Na Encarnação do Verbo, onde Deus se fez Homem , está toda a base da espiritualidade Cristão – como o professor Orlando bem explanou – e não num esoterismo cego.

Portanto, católico, se quereis salvar sua Alma, fuja desses gurus esotéricos e abrace a verdadeira espiritualidade católica. Nela é que se encontra a Salvação, não nesses delírios esotéricos. E aos esotéricos: Convertam-se à única Igreja de Cristo, fora da qual não há salvação.

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