Os melquitas ainda acreditam nos dogmas do pecado original e da Imaculada Conceição?

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O principal site melquita dos Estados Unidos (melkite.org), administrado pela Eparquia Católica Greco-Melquita de Newton, ostenta em sua plataforma digital um post no qual relativiza os dogmas católicos do pecado original e da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Segundo eles, a doutrina do pecado original seria uma mera “doutrina ocidental” (que eles explicitamente não estão de acordo) e a Imaculada Conceição, sua consequência, uma doutrina de “pouco significado no Oriente”. Escrevem eles:

“A Igreja Oriental chama Maria achrantos (impecável ou imaculada), mas nunca definiu exatamente o que isso significava. Seguindo o pensamento de Santo Agostinho sobre o pecado original, a Igreja Ocidental gradualmente passou a aceitar a doutrina da Imaculada Conceição, definida pelo Papa Pio IX em 1854: “A Bem-Aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua concepção, por uma graça singular e o privilégio concedido pelo Deus Todo-Poderoso, em vista dos méritos de Jesus Cristo, o Salvador da raça humana, foi preservada livre de toda mancha do pecado original. ” As igrejas ortodoxas rejeitaram a natureza dogmática desse ensinamento pronunciado pelo papa por sua própria autoridade. Muitos também se opuseram a isso porque define a santidade de Maria em termos de uma certa compreensão do pecado original. O que significa “toda mancha do pecado original”? A Mãe de Deus estava isenta das conseqüências do pecado ancestral (morte, corrupção, efeitos do pecado)? Alguns católicos ocidentais ainda acreditam que Maria (de fato, não poderia) morrer, mas isso nunca foi ensinado pela Igreja Ocidental. A “mancha do pecado original” foi descrita pelo Concílio de Trento do século XVI como “a privação da justiça que cada criança contrai em sua concepção”. Não existe tal entendimento na teologia oriental e, assim, dizer que Maria estava livre dela tem pouco significado no Oriente. Talvez seja por isso que muitos católicos orientais, quando ouvem falar da “Imaculada Conceição”, assumem que se refere à concepção de Cristo. O Oriente e o Ocidente concordam que a Theotokos era totalmente humana como todos nós: o que o P. Thomas Hopko chama de “mero humano”, diferentemente de seu Filho, que é um “humano real”, mas não um mero humano, porque Ele é a Palavra de Deus encarnada. Em seu livro The Winter Pascha, ele escreve: “Todos nascemos mortais e tendemos ao pecado. Mas não nascemos culpados de nenhum pecado pessoal, certamente nenhum que tenha sido cometido “em Adão”. Também não nascemos manchados por causa da maneira pela qual somos concebidos pela união sexual de nossos pais”.” (Eparquia de Newton, The Burning Bush Now Blossoms)

Perceba que aí, o próprio autor reconhece que o Concílio de Trento já havia definido a questão do pecado original, mas que ainda assim eles não a aceitam. Não se pode, portanto, alegar ignorância. Para piorar, ainda terminam com uma conclusão ainda mais ambígua:

“Ela não se tornou santa no templo – ela trouxe a graça de Deus com ela. Quando e como ela conseguiu isso? O raciocínio humano não nos ajuda lá. Não obstante, nós a proclamamos incessantemente como nossa ‘Senhora santíssima, imaculada, muito bendita e gloriosa, Theotokos e sempre virgem Maria’.” (Eparquia de Newton, The Burning Bush Now Blossoms)

Que católico, ao ser questionado sobre o momento em que Maria recebeu a graça divina, não responderia imediatamente “no momento de sua concepção”? O autor prefere simplesmente chamar Maria pelos títulos de “santíssima, imaculada, muito bendita e gloriosa” sem discutir o momento em que ela se tornou tudo isso pois tal discussão seria supostamente impossível de ser respondida para o “raciocínio humano”. Isso é claramente incompatível com o dogma de 1854. 

O mesmo texto é repetido no artigo “The New Eve is conceived”.

O site “Melkite Greek Catholic Church Information Center”, administrado pela católica melquita Martha Liles também contêm um comentário extremamente ambíguo feito pelo Patriarca Melquita Gregório III na Conferência Orientale Lumen em 2002, no qual o Patriarca parece sugerir ter uma interpretação própria (e aparentemente concordante com os “ortodoxos”) sobre aos “novos dogmas da Imaculada Conceição e Assunção”:

Nós, melquitas, temos quase tudo em comum com os ortodoxos; a história, a geografia, o Credo (sem o Filioque), os sete Concílios Ecumênicos (todos somos calcedonianos), a Divina Liturgia, e todos os livros e orações litúrgicos, usos litúrgicos, o calendário de festas e santos… Por outro lado, estamos em plena comunhão com Roma. Roma não pede que mudemos nosso credo. Mesmo quando se trata dos dois novos dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção da Theotokos, ainda mantemos nossa própria visão oriental sobre eles, como aparecem nos textos litúrgicos… Se estou em plena comunhão com Roma e não tenho nada para mudar no meu credo, na minha liturgia, que são os mesmos da ortodoxia, por que não estou em comunhão com a Igreja Ortodoxa e por que a Igreja Ortodoxa não está em comunhão com Roma? Sou ortodoxo, com uma vantagem: estou em comunhão com Roma. (Patriarca Gregório III, Orientale Lumen: Eastern Catholic Churches: a Window between East and West).

Dizendo-se “católica”, a própria Liles rejeita o caráter dogmático da Imaculada Conceição:

“O Papa raramente exerce as responsabilidades e autoridades da posição de trabalho “Papa”. Algumas pessoas dizem que a única vez em que um papa exerceu as responsabilidades e autoridades de um “papa” desde 1800 foi em 1854, quando Pio IX declarou unilateralmente o dogma da Imaculada ConceiçãoOs católicos não-romanos, incluindo melquitas, não aceitaram essa declaração como dogma. Eles acreditam que apenas um Concílio Ecumênico pode declarar dogma.” (Martha Liles, Melkite Greek Catholic Church Information Center)

A página da Eparquia Nossa Senhora do Paraíso Greco-Melquita Católica do Brasil- II, por outro lado, professa a Imaculada Conceição

A Igreja Católica condena com pena de excomunhão a negação de que o pecado de Adão seja uma mancha que nos é transmitida na concepção, assim como a negação do dogma da Imaculada Conceição.

O Concílio de Trento, por exemplo, definiu o seguinte dogma sobre o pecado original:

“Se alguém afirma que a prevaricação de Adão prejudicou somente a ele e não também à sua descendência, ou que decerto passou a todo o gênero humano só a morte do corpo, que é o castigo do pecado, não porém o pecado, que é a morte da alma, atribui a Deus uma injustiça, contradizendo o Apóstolo, que diz: “Por um só homem o pecado entrou no mundo e com o pecado a morte, e assim ela [a morte] passou a todos os homens, já que nele todos pecaram” [Rm 5,12]” (Concílio de Trento, Sessão V, 790.3; Denzinger 372).

E sobre a Imaculada Conceição:

“Por isto, depois de na humildade e no jejum, dirigirmos sem interrupção as Nossas preces particulares, e as públicas da Igreja, a Deus Pai, por meio de seu Filho, a fim de que se dignasse de dirigir e sustentar a Nossa mente com a virtude do Espírito Santo; depois de implorarmos com gemidos o Espírito consolador; por sua inspiração, em honra da santa e indivisível Trindade, para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica, e para incremento da religião cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e com a Nossa, declaramos, pronunciamos e definimos a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis.

Portanto, se alguém (que Deus não permita!) deliberadamente entende de pensar diversamente de quanto por Nós foi definido, conheça e saiba que está condenado pelo seu próprio juízo, que naufragou na Fé, que se separou da unidade da Igreja, e que, além disso, incorreu por si, “ipso facto”, nas penas estabelecidas pelas leis contra aquele que ousa manifestar oralmente ou por escrito, ou de qualquer outro modo externo, os erros que pensa no seu coração.”(Pio IX, Ineffabilis Deus, 41-42)

Não se pode, portanto, permanecer católico negando tais dogmas de Fé.

[Edição 1]: O pecado original não é um pecado pessoal. Editamos o texto para corrigir algumas imprecisões.

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