Há diferença real entre a Essência e os Atributos de Deus?

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Padre Ludwig Ott

Resposta: Os Atributos Divinos são realmente idênticos entre si e com a Essência Divina (De fide).

A razão está na absoluta simplicidade de Deus. A aceitação de uma distinção real (distinctio realis) levaria à aceitação de uma composição em Deus e, com isso, à dissolução da Divindade. No ano de 1148, um Sínodo em Rheims, na presença do Papa Eugênio III, condenou, por exemplo, a pedido de São Bernardo de Claraval, a doutrina de Gilbert de Poitiers, que, segundo a acusação de seus oponentes, colocava uma real distinção entre Deus e Divindade (DeusDivinitas), entre as Pessoas Divinas e Suas propriedades (Paterpatemitas) e, de acordo com os relatos de seus oponentes, também, entre a Essência Divina e os Atributos Divinos. Essa acusação dificilmente pode ser demonstrada pelos escritos de Gilbert.

Contra essa doutrina, o Sínodo afirmou a identidade factual de Deus com a Divindade, que é com a Natureza Divina e as Pessoas, bem como com Deus e Seus Atributos: “Credimus est confitemur simplicem naturam divinitatis esse Deum nec aliquo sensu catholico posse negari, quin divinitas sit Deus et Deus divinitas… credimus, nonnisi ea sapientia, quae est ipse Deus, sapientem esse, nonnisi ea magnitudine, quae est ipse Deus, magnum esse est.” (“Cremos e confessamos que a natureza divina em si mesma é [idêntica a] Deus nem, de qualquer forma, consoante a doutrina católica, podemos negar que a divindade é Deus e Deus é a divindade… Cremos que Deus é Sábio por essa Sabedoria que é o próprio Deus, que Deus é grande por essa grandeza que é o próprio Deus”). Denzinger 389.

O Concílio da União de Florença explicou no Decretum pro Jacobitis (1441): “[em Deus] tudo é um, onde não existe oposição de relação”. Denzinger 703.

Na Igreja grega, [há] a seita mística e quietista dos Hesicastas ou Palamitas do século XIV, assim chamada depois que o monge Gregório de Palamas (+1359) ensinou uma distinção real entre a Essência Divina (οὐσία) e a Eficácia Divina ou os atributos Divinos (ἐνέργεια). Enquanto o primeiro foi declarado incognoscível, o segundo foi declarado concedido à humanidade em uma condição de oração contemplativa (ὴσυχία) através de uma luz Divina não criada (“Luz do Tabor”).  Com isso, eles distinguiram um lado superior e um inferior, um lado invisível e um lado visível da Divindade. 

A Sagrada Escritura indica a identidade da Essência e os atributos de Deus, quando diz: “Deus é caridade” (João 4, 8).  Santo Agostinho ensina: “O que Deus tem, que Ele É” (Quod habet, hoc estDe civ. Dei XI 10, 1). Os oponentes de Gilbert resumiram a doutrina eclesiástica avançada contra seu erro nas palavras atribuídas a Santo Agostinho: Quidquid in Deo est Deus est.

Mais uma vez, a distinção não é uma mera distinção mental, como ensinaram os eunomianos nos séculos IV e V, e os nominalistas nos tempos medievais posteriores. De acordo com os eunomianos, todos os nomes e atributos de Deus são sinônimos, que expressam nada além de uma agenesia (ingeneração), na qual aparentemente compreendemos adequadamente a Essência de Deus. De acordo com os nominalistas, a distinção de várias qualidades não tem base na própria Essência Divina, mas apenas nas várias operações de Deus (cum connotationc effectuum – uma distinção que conota efeitos).

Contra a aceitação de uma mera distinção lógica, existe o fato de que as Sagradas Escrituras se referem a muitos atributos de Deus.  Explicá-las como meros sinônimos é incompatível com a dignidade das Escrituras Sagradas.  Novamente, as perfeições que aparecem nas obras de Deus pressupõem que Deus, como seu próprio criador, as possua.  Deus não é bom porque Ele faz o bem, mas Ele faz o bem porque Ele mesmo é bom.  

c) Segundo os escotistas, a diferença entre Deus e Seus atributos é formal (distinctio formalis). Uma diferença formal está entre uma diferença real e uma puramente interna. Mas a aceitação da noção de várias formalidades do ser que são atualizadoras) presentes em Deus, anteriores e independentes de nosso pensamento, é contrária à absoluta simplicidade da Substância Divina. 

d) De acordo com o ensinamento geral, a diferença deve ser concebida como uma diferença virtual (distinção virtual ou razão de relação síncrona com base em uma distinção virtual, uma distinção da razão raciocinativa com fundamento na realidade). A distinção de muitos atributos em Deus tem uma base factual na infinita plenitude do Ser Divino. Mesmo que a natureza de Deus seja em si mesma absolutamente simples, ainda podemos conhecê-la em uma multiplicidade de conceitos.  S. th. I 13, 4: nomina Deo attributa licet significent unam rem , tamen quia significant eam sub rationibus multis et diversis, non sunt synonyma  (embora os nomes atribuídos a Deus signifiquem a mesma realidade, mas porque a significam sob muitos e diversos aspectos, eles não são sinônomos).  A suposta diferença virtual deve ser mais exatamente determinada como distinctio virtualis minor, uma vez que uma importância da perfeição divina inclui a outra.

(Pe. Ludwig Ott, Fundamentals of Catholic Dogma, pp. 28-29)

[Observação]: as citações do Denzinger fazem referência à versão utilizada pelo autor. Na versão mais popular no Brasil, deve-se procurar as citações pesquisando o nome do respectivo Papa ou Concílio que as proferiu. 

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