Respostas às objeções orientais: a emenda pior que o soneto.

PALAMITAS

André Messias

Introdução

Recentemente, um jovem da comunidade melquita gravou um vídeo com intuito de refutar um de nossos textos acerca do herético Gregório de Palamas (que, assim como os cismáticos, ele crê que seja “santo”). Posteriormente, o administrador da página “Teologia Mística das Igrejas do Oriente”, movido pelas emoções, foi até o meu perfil pessoal do Facebook para ratificar sua doutrina acerca da consagração na epiclese. O intuito do presente artigo é desmontar as objeções que foram feitas em ambas as ocasiões contra os nossos artigos e demonstrar a glória da Teologia Católica, tão odiada pelos palamitas (sejam eles os cismáticos tradicionais ou os filo-cismáticos).

Dividiremos este texto em duas partes: a primeira abordará as objeções que nos foram gravadas em vídeo, enquanto que a segunda, abordará as objeções em defesa da consagração na epiclese. Vale ressaltar desde já que não comentarei a respeito dos ataques pessoais tecidos pelos jovens contra mim, pois julgamos que o sentimentalismo e a falta de caridade dos detratores falam por si só (em um deles, criticam mesmo o fato de eu morar na região Norte).

A autoridade do Sínodo de Zamosk (1720)

Como explicamos em um artigo precedente, o Sínodo de Zamosk foi um sínodo realizado pelo clero oriental da Igreja Católica Bizantina da Rutênia em 1720 e aprovado pelo Papa Bento XIII através de sua Constituição Apostólica Apostolatus officium de 19 de julho de 1724. Zamosk tinha por intuito reformar algumas práticas que a comunidade rutena havia incorporado à sua Liturgia durante os anos que se encontrava em Cisma com Roma. Um de seus grandes feitos foi ter finalmente removido de seu calendário as figuras cismáticas e heréticas cultuadas durante o período em que aderiram ao Cisma, como por exemplo, Gregório de Palamas:

“O Santo Sínodo não somente proíbe o culto de Gregório de Palamas enquanto santo ou de celebrar o dia de sua festa, mas também proíbe de nomeá-lo em nossa Igreja, sob as penas prescritas contra os cismáticos. (Sínodo de Zamosk, Titulus Decimus Septimus)

Em seu vídeo, nosso detrator questiona a autoridade do Sínodo de Zamosk, acusando-o de revolucionar a liturgia oriental, latinizando-a. Em um momento ele chega até mesmo a comparar a reforma litúrgica de Zamosk à reforma litúrgica de Paulo VI (1969), pois Zamosk teria sido supostamente presidida por um legado papal que o detrator (absurdamente) compara aos pastores protestantes que colaboraram na elaboração da Novus Ordo. Ainda segundo o vídeo, Zamosk teria contrariado os acordos da União de Brest (1595) e, como o Concílio Vaticano II, não teria proclamado qualquer “fato dogmático” (termo cujo conceito ele aparentemente desconhece).

Comecemos respondendo às objeções de caráter histórico. Como ressalta o Papa Bento XIV em sua Encíclica Ex quo, o Sínodo de Zamosk, no entanto, não foi presidido por um mero “legado papal” e sim pelo próprio Arcebispo de Edessa, o Cardeal Hieronymus Grimaldus, que também era legado papal da Polônia. Comparar sem razão um Príncipe da Igreja Católica com os inimigos da mesma é inadmissível. Zamosk também não contrariou a União de Brest na medida em que o item VI da supracitada União (a quem o detrator provavelmente se refere) não especifica o tipo de festa que os rutenos desejavam que fosse mantida. Ao citar a Pascália e a Festa da Teofania como exemplos, a União de Brest sugere estar tratando apenas das celebrações de grande porte. Este cânon é, por outro lado, também um precursor de Zamosk, na medida em que reconhece a necessidade da revisão do Calendário Litúrgico Oriental se o antigo não puder mais ser”

Partamos agora às objeções de caráter teológico. O devoto do cismático não consegue entender como poderíamos propor a condenação do culto de Palamas como um “fato dogmático”. Concordo que no texto precedente, esse ponto não ficou claro. Por conta disso, desenvolverei um pouco mais do meu argumento. A Igreja, pelo poder a ela concedido por Nosso Senhor Jesus Cristo, não é infalível apenas nas questões de Fé e de Moral, mas também em todas aquelas questões que estão conectadas de forma necessária à Fé e à Moral, mesmo que estejam na ordem factual. Isso é o que em Teologia chamamos de um “fato dogmático”. Quando a Bula Cum Occasione condenou o jansenismo, ela acabava por condenar também a pessoa de Jansênio pois sua pessoa histórica estava diretamente relacionada com as doutrinas que haviam sido condenadas. Ora, a doutrina de Palamas claramente já havia sido condenada pela Igreja. A Constituição Benedictus Deus do Papa Bento XII, em 1336, definiu dogmaticamente que os santos nos Céus contemplam a própria Essência Divina” (“Essentiam Divinam visione intuitiva et etiam faciali”) e, como veremos a seguir, Eugênio III já havia condenado formalmente em 1148 qualquer proposição que sustentasse haver uma distinção real entre a Essência Divina e os Atributos Divinos. Por conta disso, havíamos proposto a possibilidade (não a certeza) de que Zamosk, ao condenar sua pessoa histórica (que está diretamente relacionada às heresias condenadas), incorreria em fato dogmático. Seja como for, esse está longe de ser o principal argumento do texto. 

É absurdo dizer-se católico e fazer-se um adversário de Zamosk da forma como o Youtuber se faz. É óbvio que se fazia necessário uma reforma na liturgia oriental depois de anos imersa no Cisma e na heresia. Isso levou, por exemplo, o Papa Pio IX, beatificado em 2000, a reforçar ainda mais a autoridade dos cânones de Zamosk através de seu Magistério:

“2. Visto que, no entanto, o elo mais próximo possível liga a prática litúrgica e as verdades dogmáticas, a Sé Apostólica, assim que detectou “qualquer ritual perigoso ou indecoroso se infiltrando na Igreja Oriental, desaprovou, condenou e proibiu seu uso” (cf. Bento XIV, Allatae sunt, seção 27, 26 de julho de 1755).

3. Por outro lado, essa preocupação de preservar intactas as liturgias antigas não impediu que certos ritos, emprestados de outras igrejas, fossem admitidos no ritual oriental. Gregório XVI, de abençoada memória, escreveu sobre isso aos católicos armênios: “seus antepassados ​​os admiravam porque pareciam mais adequados e bonitos ou os apresentavam em vários períodos como uma marca distintiva que se separava de hereges e cismáticos.” (cf. Gregório XVI, Studium paternae benevolentiae, 2 de maio de 1836), como declarou o mesmo Sumo Pontífice, “essa regra deve ser absolutamente observada, segundo a qual, exceto pelas razões mais sérias e com a Sé Apostólica, nenhuma inovação deve ser introduzida nos ritos sagrados da liturgia, mesmo sob o pretexto de restaurar cerimônias que possam parecer mais conformes com liturgias aprovadas pela mesma Sé.” (Gregório XVI, Inter gravissimas, 3 de fevereiro de 1832). […]

6. […] De fato, aprendemos recentemente que uma controvérsia muito amarga foi levantada sobre questões litúrgicas entre católicos do rito greco-ruteno e que certas pessoas, mesmo investidas em ordens clericais, desejosas de novidades, tentaram mudar os ritos de acordo com seus próprios gostos. Alguns desses ritos são usados ​​desde tempos imemoriais, outros confirmados solenemente pela sanção do Sínodo de Zamosk, que teve a aprovação da Sé Apostólica.

7-8.  Mas o que mais nos incomoda é o estado de coisas miserável que agora afeta a diocese de Chelm. De fato, seu bispo, a quem instalamos há alguns anos e que ainda está conectado com essa diocese por laços espirituais, se foi e um certo pseudo-administrador, que há muito julgamos indigno da dignidade episcopal, não temia usurpar a jurisdição eclesiástica e derrubar tudo dentro dessa igreja. E além disso, ele até adulterou a liturgia canonicamente sancionada por sua própria iniciativa. Para nossa tristeza, temos diante de nossos olhos a carta circular publicada em 20 de outubro de 1873, na qual o pseudo-administrador se atreve a inovar no exercício do culto divino e da sagrada liturgia. Sem dúvida, seu único objetivo é introduzir a liturgia dos cismáticos na diocese de Chelm. Para enganar com mais facilidade as pessoas simples e sem instrução, ele citou descaradamente certas constituições da Santa Sé e as interpretou fraudulentamente à sua maneira. […]

10. Além disso, os cânones sagrados da Igreja prescrevem que os ritos orientais antigos legitimamente introduzidos deveriam ser escrupulosamente retidos. “Nossos predecessores, os pontífices romanos, concordaram com freqüência e de propósito ou não em aprovar esses ritos, na medida em que de modo algum se oponham à Fé Católica, nem causem perigo às almas nem depreciem a dignidade eclesiástica.” [8] Ao mesmo tempo, esses cânones declararam solenemente que ninguém, sem consultar esta Santa Sé, pode introduzir as menores inovações na liturgia. Isso é suficiente e claramente indicado nas constituições apostólicas mencionadas anteriormente. […]

14. Além disso, irmãos veneráveis, exortamos a vós [bispos da Rutênia], também, que com tanto trabalho e zelo singular assumiu o cuidado dos rutenos que lhes foram confiados, a preservar escrupulosamente a prática litúrgica aprovada pela Sé Apostólica ou introduzida com seu conhecimento e sem a sua censura. Rejeite totalmente qualquer inovação e tenha o cuidado de instruir pastores e padres a observar com mais precisão, mesmo sob a mais estrita sanção, se necessário, os cânones sagrados sobre esses assuntos, especialmente os do Sínodo de Zamosk. De fato, a questão é a mais grave, a da salvação de almas, uma vez que inovações ilegítimas estão causando o maior perigo para os rutenos católicos na fé e na unidade religiosa. Portanto, nenhum cuidado deve ser poupado e nada deixado por tentar, para que toda a desordem nos assuntos litúrgicos provocada por homens maus seja totalmente suprimida desde o início. Estamos confiantes, irmãos veneráveis, de que, com Deus concedendo Sua graça, você não deixará de cumprir esses deveres com firmeza e comodidade.” (Beato Pio IX, Omnem Sollicitudinem, 2-14)

Zamosk também foi elogiado por Bento XIII (Constituição Apostólica Apostolatus officium), Bento XIV (Encíclica Ex Quo) e Pio XII (Orientales Omnes Ecclesias). Perceba, portanto, que pelo menos quatro Papas elogiaram diretamente o Sínodo de Zamosk. Eles consideravam que as mudanças que o Sínodo trouxe à liturgia rutena (e que o Youtuber considera como um grande exemplo de “corrupção latinizante da liturgia oriental”) eram mínimas e benéficas. Muitas destas mudanças eram necessárias para extirpar, como diz Pio IX, dos ritos orientais, os últimos laços que os prendiam aos cismáticos. Negar que elementos “perigosos ou indecorosos” estavam”se infiltrando na Igreja Oriental” durante o período de tempo citado pelos Papas é negar sem fundamento algum o próprio Magistério de Bento XIV e Pio IX.

Como podemos ler na carta de Pio IX, desde sua época, no entanto, alguns orientais já tentavam [tal qual nosso amigo Youtuber] restaurar os elementos da liturgia cismática na liturgia católica oriental. Quando a Santa Sé editou em 1738 a primeira Antologia Grega dos uniatas retirou as referências a Gregório de Palamas e outros “santos” cismáticos [1]. O mesmo se repetiu em 1879 [2]. Até antes do Concílio, reconhece um autor pró-palamita: “seguindo essas diretrizes e imitando o modo latino de teologia [i.e. adotando simplesmente a metafísica católica*], os teólogos católicos gregos também rejeitaram fortemente a síntese teológica de Palamas, tanto no campo da doutrina teológica quanto na vida espiritual e litúrgica da Igreja.” [3]. Só em 1974, quando o modernismo já havia se estabelecido entre o clero, é que a Congregação para a Doutrina da Fé passará, aparentemente porque também é incerto se ocorreu essa aprovação ao culto,  a permitir o seu culto [4]. Um verdadeiro regresso aos tempos sombrios em que estavam no Cisma.

Além de Zamosk, uma doutrina análoga a de Palamas também foi condenada indiretamente no Ocidente. Explica o Padre Ludwig Ott:

“A aceitação de uma distinção real (distinctio realis) levaria à aceitação de uma composição em Deus e, com isso, à dissolução da Divindade. No ano de 1148, um Sínodo em Rheims, na presença do Papa Eugênio III, condenou, por exemplo, a pedido de São Bernardo de Claraval, a doutrina de Gilbert de Poitiers, que, segundo a acusação de seus oponentes, colocava uma real distinção entre Deus e Divindade (DeusDivinitas), entre as Pessoas Divinas e Suas propriedades (Paterpatemitas) e, de acordo com os relatos de seus oponentes, também, entre a Essência Divina e os Atributos Divinos. Essa acusação dificilmente pode ser demonstrada pelos escritos de Gilbert.

Contra essa doutrina, o Sínodo afirmou a identidade factual de Deus com a Divindade, que é com a Natureza Divina e as Pessoas, bem como com Deus e Seus Atributos: “Credimus est confitemur simplicem naturam divinitatis esse Deum nec aliquo sensu catholico posse negari, quin divinitas sit Deus et Deus divinitas… credimus, nonnisi ea sapientia, quae est ipse Deus, sapientem esse, nonnisi ea magnitudine, quae est ipse Deus, magnum esse est.” (“Cremos e confessamos que a natureza divina em si mesma é [idêntica a] Deus nem, de qualquer forma, consoante a doutrina católica, podemos negar que a divindade é Deus e Deus é a divindade… Cremos que Deus é sábio por essa sabedoria que é o próprio Deus, que Deus é grande por essa grandeza que é o próprio Deus”). Denzinger 389.

O Concílio da União de Florença explicou no Decretum pro Jacobitis (1441): “[em Deus] tudo é um, onde não existe oposição de relação”. Denzinger 703.” (Padre Ludwig Ott, Há diferença real entre a Essência e os Atributos de Deus?)

O autor do vídeo afirma, então, que Paulo VI teria aprovado o Sínodo Greco-Melquita de 1971, que, entre outras coisas, teria autorizado o culto de Palamas como “Santo”. Supondo serem estes dados verdadeiros, para responder isso nos limitaremos a citar o Padre Daniel Pinheiro:

“O assentimento ao Magistério Supremo não-infalível não pode, então, ser absoluto e a maioria dos teólogos diz que se trata de um assentimento moralmente certo. Trata-se, por conseguinte, de uma certeza moral, que, como dissemos, não exclui a possibilidade do erro, mas somente a sua probabilidade. Os teólogos acrescentam que esse assentimento deve ser também condicionado, quer dizer, implicando a seguinte condição: a não ser que o contrário seja decidido ou tenha sido decidido pela Igreja e a não ser que o contrário seja demonstrado com verdadeira evidência pela razão. Trata-se, pois, de um assentimento interno e religioso” (Padre Daniel Pinheiro, “Graus de assentimento ao Magistério”)

O Padre Daniel conclui:

“Deve-se, então, ao Magistério supremo não-infalível um verdadeiro assentimento interior da inteligência e da vontade, salvo se a condição se realiza. Dito de outro modo, no caso de evidência do contrário, seja por demonstração da razão (o que não deve ser admitido facilmente, mas somente por alguém capaz na matéria correspondente e depois de longa reflexão diante de Deus), seja por definição da Igreja, é lícito suspender o juízo, duvidar e mesmo dissentir” (Padre Daniel Pinheiro, “Graus de assentimento ao Magistério”)

Então, mesmo que Paulo VI tenha aprovado o Sínodo isso seria irrelevante, pois o culto a um cismático não só contraria a razão como também contraria as definições anteriores Igreja. Considerando como Magistério, tal ato seria parte do Magistério “meramente autêntico” e falível do Pontífice cabendo desta forma uma justa resistência. Como eu já disse anteriormente o Magistério não pode ser esquizofrênico. Se antes houve uma definição razoável e contrária, não deve o novo Pontífice contrariá-la. Nesse caso é ainda pior, pois o culto a um cismático contraria o bom-senso e a razão. E, quer queira, quer não, um Papa aprovou o texto do Sínodo de Zamosc e enviou até um Núncio para lá, fato este elogiado por seus Sucessores. Questionar a todos esses Papas e seus respectivos Magistérios por puro apego emocional a um herege cismático como Palamas chega a ser cômico. E é evidente que um erro condenado entre os rutenos, pela proeminência que teve ali, hic et nunc, não deixa de ser erro em outras partes do globo…

Vale ressaltar novamente outro aspecto que o Youtuber ignora: a presença de um Núncio Apóstolico no Sínodo, que, lembre-se, é o representante oficial do Papa, só torna o sínodo ainda mais legítimo, pois foi presidido por uma autoridade legítima. Negar isso é aderir novamente ao cisma oriental

Como o Gabriel ressaltou em seu texto há alguns dias, é baseado no apoio de Henri de Lubac, Jean Danielou e Louis Bouyer que, por exemplo, o principal site melquita dos Estados Unidos tenta legitimar a readmissão de Palamas em seu calendário:

“Os ensinamentos de Palamas foram considerados há muito suspeitos, se não heréticos, no Ocidente, que adotaram o escolasticismo aristotélico, adaptado por São Tomás de Aquino como sua teologia oficial. Foi apenas no século XX que os ensinamentos de São Gregório foram vistos positivamente por teólogos católicos ocidentais, como Henri de Lubac, Jean Danielou e Louis Bouyer. Nos anos 30, Danielou escreveu como estava empolgado ao ler sobre a “visão de humanidade de Palamas transfigurada pelas energias divinas” (Eparchy of Newton, The Search for Sacred Quietude)

Todo o apoio do Magistério pré-conciliar a Zamosc é uma condenação indireta a Palamas. Todo o apoio do Magistério pós-conciliar a Palamas é uma confirmação indireta que o modernismo ecumenicista também chegou às comunidades uniatas.

Passemos agora à refutação de outros pontos secundários presentes no vídeo:

a) Ausência de documento que comprove aprovação do culto por Pio XII

O autor começa seu vídeo dizendo desconhecer a tese da suposta “aprovação” de Pio XII ao culto de Gregório de Palamas e que supostamente seguiria uma “aprovação” de Paulo VI que teria sido bem posterior. O autor pode até nunca ter usado esse argumento, mas muitos uniatas, inclusive melquitas, acreditavam nele e o usavam. Existe até um texto do blog neoconservador “Salvem a Liturgia onde o autor usa esse mito da “aprovação” como base para evitar críticas de tradicionalistas. Essa era uma ideia usada especialmente para tentar invalidar qualquer crítica a essa ‘’aprovação”. Justamente por isso provamos que era um mito. Fica agora a cargo do autor do vídeo mostrar as provas dessa “aprovação” por Paulo VI de forma mais bem documentada, pois afirmar é algo fácil. Independente disso, mesmo que confirmado, tal ato não teria validade em virtude de motivos que apresentamos acima.

b) Assumo só um Magistério pré-conciliar?

O autor segue de forma, a nosso ver infundada, tentando colocar em nós a imagem de protestantes por supostamente fazermos escolha dos textos do Magistério. Ele diz que reconhecemos só o Magistério pré-conciliar ignorando qual seria nossa opinião real sobre o fato. Assim como os demais administradores do blog, eu sigo a opinião do Padre Daniel Pinheiro sobre os diferentes “graus de assentimento ao Magistério”. O Magistério Conciliar se enquadraria enquanto “Magistério meramente autêntico”, não dispondo de infalibilidade, uma vez que os documentos foram escritos sem a chamada “voluntas defendi” que seria a intenção de definir.

Tanto é verdade que, ninguém questionou Pio XII sobre seu documento ou, se questionou, era ligado a linha modernista, mas quanto ao CVII, ainda durante o Concílio, houve críticas e até apontamento de erros teológicos.

Isso sem falar que também existe a tese do Padre Álvaro Calderón da Fraternidade de São Pio X que afirma que – pelo Magistério pós conciliar não condenar nem defender claramente nada – ele não seria Magistério, limitando-se só ao peso de uma homilia.

Deixaremos em anexo o artigo do Padre Daniel, que é do IBP, em “plena” comunhão com Roma e que publica sobre isso de forma pública, mas o ponto é que até o Vaticano reconheceu o direito de críticas ao Concílio com a criação do IBP e, de fato, isso ocorre na prática. Basta ver o sermão do Padre Daniel sobre a função do IBP ou as aulas contra a teologia do corpo e de assentimento ao Magistério no canal “Missa Tridentina em Brasília” (todas públicas).

O ponto é que a crítica ao Concílio não é o mesmo que criticar um documento aprovado por dois Papas por pura afeição aparentemente só cega e sentimental. A comparação com os protestantes, portanto, é totalmente infundada.

c) Santos Padres supostamente também defendiam a doutrina de “São” Gregório Palamas.

Em uma parte de seu vídeo, sem citar fonte alguma, o uniata diz que os Padres do Deserto, São Gregório de Nissa e São Máximo Confessor defendiam as heresias de Palamas. Para fins desse texto, consideremos um cenário em que sua fala (que na realidade é dificilmente verdadeira) seja verdade. O fato é que, apesar de seu grande valor para a Igreja, os escritos de muitos Padres da Igreja Primitiva ocasionalmente podem conter algum tipo de erro filosófico ou teológico. Se algum deles defendeu a doutrina herética do Palamas (coisa que ele não provou com fontes primárias) ocorreu antes que o Magistério pudesse corrigi-lo sobre este assunto. Isto é especialmente verdadeiro para certos Padres Orientais em suas visões da sexualidade humana, da natureza do pecado original e da degeneração da bondade da natureza humana que esses ensinamentos envolvem. Em suma: santos individuais não são infalíveis.

São Máximo Confessor é um exemplo disso. Ele ensinou o erro de que a distinção entre sexos não fazia parte do plano original de Deus para o homem, e que essa divisão do homem em dois sexos era feita apenas por Deus “em previsão de pecar”; em outras palavras, porque Deus previu que o homem pecaria. São Máximo escreve:

“Em outras palavras, que tipo de fim ou julgamento aguarda aqueles que não apenas mantiveram vivos e ativos – tanto na alma como no corpo, tanto na vontade quanto na natureza – o nascimento Adâmico baseado no prazer …” (São Máximo Confessor, Ad Thalassium 61)

Em outras palavras, de acordo com São Máximo, colocando de maneira franca, o pecado original estava preferindo o ato sexual ao invés de Deus. Além disso, não haveria para ele salvação sem a renúncia da sexualidade humana. Tanto pela santidade da vida familiar, quanto pela validade do estado de vida matrimonial como um caminho para Deus, ambas defendidas pela Igreja, fica claro que esses ensinamentos estão errados.

É engraçado como nossos detratores ignoram os ditos Magisteriais e se apoiam apenas na suposta posição patrística sobre o tema. Isso era exatamente o que os jansenistas faziam com Santo Agostinho. Ensinamentos de santos são falíveis, e jamais podem preferir ao ensino autorizado da Igreja:

Papa Bento XIV, Apostolica (6), 26 de Junho de 1749: “O julgamento da Igreja é preferível àqueles de um Doutor renomado pela sua santidade e ensinamento.”

Erros dos Jansenistas,  30: “Quando alguém encontra uma doutrina claramente estabelecida por Agostinho, ele pode absolutamente sustentá-la e ensiná-la, não levando em consideração qualquer bula do papa.” – Condenado pelo Papa Alexandre VIII.

Então tal tema não é uma doutrina como  “a Igreja tem várias filosofias, a Escolástica é só uma delas”. O Magistério já se posicionou claro contra isso. Citamos novamente os Papas.  Em sua encíclica Studiorum Ducem, o Papa Pio XI escreve: 

“Aprovamos com tanto entusiasmo o magnífico tributo de louvor concedido a esse gênio mais divino que consideramos que Tomás deveria ser chamado não apenas de angelical, mas também de médico comum ou universal da Igreja; pois a Igreja adotou sua filosofia para si própria”.

Summa Theologica de Santo Tomás foi um dos dois livros (o outro a Bíblia) colocado no altar durante todo o tempo em que o Concílio de Trento esteve em sessão. Os fundamentos filosóficos e teológicos para as doutrinas que Trento definiu estão enraizados em Santo Tomás. A fim de enfatizar a absoluta centralidade de São Tomás na compreensão da doutrina católica, eu pediria ao leitor que considerasse seriamente as seguintes citações dos papas São Pio X e Pio XI:

“Novamente, se quisermos evitar os erros que são a fonte de todas as misérias do nosso tempo, o ensino de Tomás de Aquino refuta as teorias propostas pelos modernistas em todas as esferas …” (Pio XI, Studiorum Ducem).

“Tomás escreveu sob a inspiração do espírito sobrenatural que animou sua vida e que seus escritos, que contêm os princípios e as leis que governam todos os estudos sagrados, devem ter caráter universal.” (Studiorum Ducem)

“Desejamos, portanto, que todos os professores de filosofia e teologia sagrada sejam avisados de que, se desviarem um passo, principalmente na metafísica, de Aquino, se expõem a um risco grave.” (Pio X, Doctoris Angelici).

“Assim como a opinião de certos antigos deve ser rejeitada,  que sustentavam que não faz diferença para a verdade da Fé o que qualquer homem pensa sobre a natureza da criação, desde que suas opiniões sobre a natureza de Deus sejam sólidas, porque o erro com a consideração da natureza da criação gera um falso conhecimento de Deus; assim, os princípios da filosofia estabelecidos por São Tomás de Aquino devem ser observados de maneira religiosa e inviolável, porque são os meios de adquirir um conhecimento da criação que seja mais congruente com a fé; de refutar todos os erros de todas as épocas e de permitir ao homem distinguir claramente quais coisas devem ser atribuídas a Deus e somente a Deus.” (Pio X, Doutor Angelici)

Portanto, um católico é obrigado a ter a Escolástica em alta estima. No caso da visão beatífica, é obrigado a segui-la integralmente já que foi dogmatizado pela Constituição Benedictus Deum enquanto Palamas ainda vivia. Esses uniatas agem como neo-jansenistas.

d) Espantalho da Escolástica com Barlaão

O autor do vídeo age de forma errada ligando a opinião de Barlaão com a Escolástica. Ainda que supuséssemos a veracidade da afirmação de que Barlaão “defendia que os filósofos sabiam mais que os profetas” (novamente, sem dar referências!), isso teria tanta validade quanto tinham os escritos de outros escolásticos que tiveram alguma espécie de erro.

Repito: o tomismo é a filosofia oficial da Igreja no que tange a metafísica. Pouco importa se Barlaão ou a Dona Chiquinha se diziam escolásticos e defenderam algum absurdo como esse citado pelo autor. São Pio X aprovou o Decreto da S. Congregação dos Estudos de 27 de Julho de 1914 como parte de seu magistério oficial. Este decreto definia como doutrina oficial da Igreja Católica, entre outras teses tomistas, as seguintes:

“1. Potência e ato dividem o ser de tal sorte que tudo quanto é, ou é ato puro, ou é necessariamente composto de potência e ato, como princípios primeiros e intrínsecos.

2. O ato, enquanto perfeição, não está limitado senão pela potência, que é capacidade da perfeição. Por conseguinte, na ordem em que é puro, o ato só pode existir como ilimitado e único; mas na ordem em que é finito e múltiplo, entra em verdadeira composição com a potência.

3. Portanto, pela razão absoluta de seu ser mesmo, só existe um ser único e simplicíssimo, que é Deus; todas as outras coisas que participam do ser mesmo tem uma natureza pela qual o ser é limitado e são compostas de essência e ser como de dois princípios realmente distintos.” (DENZINGER, 3601-3603)

Querem continuar católicos? Ouçam o que ensina o Magistério de sempre!

e) Reformas no Rito Latino

O autor do vídeo também demonstrou ser desconhecedor da história do Rito Latino. O Rito Latino teve várias reformas ao longo da história; nenhum tradicional que se preze defende que rezamos o mesmo rito da época dos apóstolos. O próprio concílio de Trento, aliás, foi uma reforma do missal. Tanto o é que eu, pessoalmente, assisto Missas com o Missal de João XXIII. As críticas a Reforma feita por Paulo VI não foram pelo Papa ter interferido no Rito – até porque ele tem poderes para isso – mas sim por ela ter sido toda “fabricada”, nas palavras do próprio Bento XVI. Não foi algo espontâneo ou uma mudança num Rito sustentada pela razão, mas simplesmente uma fabricação sem necessidade alguma. Por isso, aliás, o próprio Bento XVI iniciou a sua reforma da reforma para corrigir erros do Missal, o que mostra que ele é, sim, passível de críticas, isso considerando a visão de Bento XVI. E, sim, houve participação de protestantes, o que nos leva ao maior absurdo que foi falado no vídeo.

f) O Sínodo representou um processo de latinização

Outro argumento recorrente do autor foi citar vários textos para afirmar que o Sínodo de Zamosc representou uma latinização dos ritos orientais. Esse argumento vai de encontro com o que Bento XIII, Bento XIV, Pio IX e Pio XII escreveram em seu Magistério acerca do Sínodo em questão. Pio XII, por exemplo, foi Papa muito tempo depois da condenação da chamada “latinização” e ainda assim elogiou o Sínodo de Zamosc, considerando suas alterações como mínimas e irrelevantes.

Mas o que esses uniatas definem como latinização? Se for a ideia de que o Rito Latino deve absorver os outros, eu também sou contra. Agora dizer que a intervenção de um Papa num sínodo e uma alteração na liturgia aprovada por ele é latinização é basicamente negar a jurisdição universal do Papa! Não existe proibição à intervenção do Papa nos Sínodos e na Liturgia porque o papa tem justamente jurisdição universal sobre toda a Igreja. Se o Papa não pudesse intervir, não faria sentido pedir para incluir um cismático (i.e. Palamas) no Calendário Litúrgico Bizantino como pediram os Ucranianos a Paulo VI nas cartas que demonstramos aqui.

Afinal, Zamosc foi feita pelos orientais rutenos e ratificado pelo papa e não só os rutenos deram assentimento a ele, mas o assentimento na retirada de Palamas do calendário foi assentido também pelos ucranianos como podemos observar na carta do bispo oriental ao Prefeito do Dicastério Romano pedindo a volta de Palamas.

Quando a Igreja recebeu os uniatas de volta em sua comunhão, sua liturgia ainda estava corrompida por alguns elementos oriundos dos anos de cisma:

“Por outro lado, essa preocupação de preservar intactas as liturgias antigas não impediu que certos ritos, emprestados de outras igrejas, fossem admitidos no ritual oriental. Gregório XVI, de abençoada memória, escreveu sobre isso aos católicos armênios: “seus antepassados ​​os admiravam porque pareciam mais adequados e bonitos ou os apresentavam em vários períodos como uma marca distintiva que se separava de hereges e cismáticos.” (cf. Gregório XVI, Studium paternae benevolentiae, 2 de maio de 1836), como declarou o mesmo Sumo Pontífice, “essa regra deve ser absolutamente observada, segundo a qual, exceto pelas razões mais sérias e com a Sé Apostólica, nenhuma inovação deve ser introduzida nos ritos sagrados da liturgia, mesmo sob o pretexto de restaurar cerimônias que possam parecer mais conformes com liturgias aprovadas pela mesma Sé.” (Gregório XVI, Inter gravissimas, 3 de fevereiro de 1832).” (Beato Pio IX, Omnem Sollicitudinem, 3)

Verdadeira latinização indevida ocorre quando se restaura o culto aos cismáticos nos ritos bizantinos por conta da Nova Teologia dos Latinos, como provavelmente aconteceu entre os melquitas.

A questão da consagração na epiclese

Agora farei uma breve refutação às objeções deles em relação ao nosso artigo sobre a consagração na epiclese. Alguns uniatas rancorosos postaram uma resposta ao nosso texto sobre a consagração na epiclese. No texto, demonstraram não terem sequer lido o nosso artigo. Seu argumento se limita ao sofisma “não dizemos que a consagração ocorre na Epiclese mas que é um conjunto”; isso não muda nada, porque nos textos do artigo, os Papas deixam claro que a consagração está ligada à fórmula. Tanto que no artigo, que não foi lido, deixamos um texto que contêm citações patrísticas falando sobre a consagração no “Isto é o meu Corpo”. E não só de padres latinos, mas também de gregos, como São João Crisóstomo. É um texto bem útil para o que estamos falando (“East-West Disagreements about Epiclesis”). Isso, aliás, está no próprio Catecismo de São Pio X:

599) Que é a hóstia antes da consagração?

A hóstia antes da consagração é pão de trigo.

600) Depois da consagração, que é a hóstia?

Depois da consagração, a hóstia é o verdadeiro Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, debaixo das espécies de pão.

601) Que está no cálice antes da consagração?

No cálice, antes da consagração, está vinho com algumas gotas de água.

602) Depois da consagração, que há no cálice?

Depois da consagração, há no cálice o verdadeiro Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, debaixo das espécies de vinho.

603) Quando se faz a mudança do pão no Corpo, e do vinho no Sangue de Jesus Cristo?

A conversão do pão no Corpo, e do vinho no Sangue de Jesus Cristo, faz-se precisamente no ato em que o sacerdote, na santa Missa, pronuncia as palavras da consagração.

604) Que é a consagração?

A consagração é a renovação, por meio do sacerdote, do milagre operado por Jesus Cristo na última Ceia, quando mudou o pão e o vinho no seu Corpo e no seu Sangue adorável, por estas palavras: Isto é o meu Corpo; este é o meu Sangue.

Em 1912,o Próprio Papa São Pio X fez um novo catecismo, preenchendo algumas lacunas desse, chamado “Catecismo da Doutrina Cristã” e essa parte do momento da transubstanciação permaneceu inalterada.

Essa explicação também está presente no Catecismo Romano:

“b) Transubstanciação mais ainda. Na feitura dos outros Sacramentos, a matéria ou elemento não se muda em substância diversa. A água batismal e o óleo de Crisma não perdem respectivamente a substância própria de água ou de azeite, quando se administram os Sacramentos do Batismo e da Confirmação. Mas, na Eucaristia, o que antes da consagração era simples pão e vinho, é verdadeira substância do Corpo e Sangue de Nosso Senhor, desde que se efetuou a Consagração.”

“Estes elementos materiais também concorrem, não pouco, para que os homens venham a reconhecer que este Sacramento encerra, de fato, o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor. Pois, ao vermos todos os dias que, por um processo natural, o pão e o vinho se convertem em carne e sangue do homem, mais facilmente chegamos a crer, mediante essa analogia, que a substância do pão e do vinho se convertem, pelas palavras da consagração, na verdadeira Carne de Cristo e no Seu verdadeiro Sangue.”

E também quando o Catecismo trata da forma do Sacramento:

“Forma é aquilo que significa o efeito operado por este Sacramento. Ora, como as palavras citadas declaram, de maneira explícita, o efeito que se opera, isto é, a conversão do pão no verdadeiro Corpo de Nosso Senhor, segue-se, portanto, que elas mesmas constituem a forma da Eucaristia. Nesse sentido se deve tomar a expressão do Evangelista: “benzeu-o”. Era como se dissesse : “Ele tomou o pão, benzeu-o, pronunciando as palavras: Isto é o Meu Corpo”.

Ora , Clemente XIII declarou a 14 de junho de 1761 na sua Dominico Argo que o Catecismo Romano “está livre de todo perigo de erro” o que demonstra a clara aprovação Papal deste Catecismo.

Além disso, no decreto de união com os armênios e jacobitas no Concílio de Florença (1439-1445) não há nenhuma referência sobre a epiclese, mas estava colocado que as palavras da Instituição são a forma da Transubstanciação (Denzinger 1320, 1352). Um decreto similar foi exarado pelo Tridentino (Denzinger 1654).

A tese do Príncipe Maximiliano da Saxônia, que tentava reconciliar as duas teorias, de que as Palavras da Instituição seriam necessárias para a igreja latina e a epiclese para a igreja grega, foi condenada por São Pio X em 1910 (Denzinger 3556).

Isso demonstra qual é a Doutrina da Igreja sobre quando ocorre a transubstanciação: ela  acontece quando o sacerdote recita as Palavras da Fórmula. Repetimos que nem seria necessário essas outras fontes já que o nosso texto como já está, bastaria para refutar essa objeção do uniata em questão.

Conclusão

Para concluir digo que não tenho nada contra os orientais e se faço essas críticas é por caridade aos meus irmãos, para que eles não sejam vítimas de uma doutrina errônea que pode conduzi-los ao erro. Tenho grande admiração pela Liturgia do Oriente e pelos Padres do Deserto como Santo Antão, mas não posso aceitar o culto a um herege cismático público que tem uma doutrina claramente anti-tomista e gnóstica. Isso não veio comigo, vários teólogos renomados em estudos Orientais do Século XX também já acusavam Palamas de herege. E, me desculpem os uniatas em questão, mas ao agirem dessa forma vocês estão zombando do Sacrifício de São Josafá e quase aderindo a um Cisma. Que se finde a cismático-dulia.

Notas

[1] Zhykovskyy Viktor,  Святий григорій палама і його легітимізація в угкц, p. 148-149.

[2] ibid.

[3] ibid.

[4] ibid.

* O que está escrito entre colchete foi escrito por nós.

Anexo

1) “… confessamos que a Trindade santa e inseparável, isto é, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, é de uma divindade, de uma natureza e substância ou essência, de modo que professamos que ela também possui uma vontade, força, operação natural, dominação, majestade, poder e glória…” (Papa São Agatão, Carta ao Imperador, III Concílio de Constantinopla)

2) “Na Igreja grega, a seita mística e quietista dos Hesicastas ou Palamitas do século XIV (assim chamada depois que o monge Gregory Palamas (+1359) ensinou uma distinção real entre a Essência Divina (ousía) e a Eficácia Divina ou os atributos Divinos (energeia). Enquanto o primeiro foi declarado incognoscível, o segundo foi declarado concedido à humanidade em uma condição de oração contemplativa através de uma luz Divina não criada (“Luz do Tabor”).  Com isso, eles distinguiram um lado superior e um inferior, um lado invisível e um lado visível da Divindade. 

A Sagrada Escritura indica a identidade da Essência e os atributos de Deus, quando diz: “Deus é caridade” (João 4, 8).  Santo Agostinho ensina: “O que Deus tem, que Ele É” (Quod habet, hoc est: De civ. Dei XI 10, 1). Os oponentes de Gilbert resumiram a doutrina eclesiástica avançada contra seu erro nas palavras atribuídas a Santo Agostinho: Quidquid in Deo est Deus est.

Mais uma vez, a distinção não é uma mera distinção mental, como ensinaram os eunomianos nos séculos IV e IV, e os nominalistas nos tempos medievais posteriores. De acordo com os eunomianos, todos os nomes e atributos de Deus são sinônimos, que expressam nada além de uma agenesia (ingeneração), na qual aparentemente compreendemos adequadamente a Essência de Deus. De acordo com os nominalistas, a distinção de várias qualidades não tem base na própria Essência Divina, mas apenas nas várias operações de Deus (cum connotationc effectuum – uma distinção que conota efeitos).

Contra a aceitação de uma mera distinção lógica, existe o fato de que as Sagradas Escrituras se referem a muitos atributos de Deus.  Explicá-las como meros sinônimos é incompatível com a dignidade das Escrituras Sagradas.  Novamente, as perfeições que aparecem nas obras de Deus pressupõem que Deus, como seu próprio criador, as possua.  Deus não é bom porque Ele faz o bem, mas Ele faz o bem porque Ele mesmo é bom.  a) Segundo os escotistas, a diferença entre Deus e Seus atributos é formal (distinctio formalis). Uma diferença formal está entre uma diferença real e uma puramente interna. Mas a aceitação da noção de várias formalidades do ser que são atualitadoras) presentes em Deus, anteriores e independentes de nosso pensamento, é contrária à absoluta simplicidade da Substância Divina.  b) De acordo com o ensinamento geral, a diferença deve ser concebida como uma diferença virtual (distinção virtual ou razão de relação síncrona com base em uma distinção virtual, uma distinção da razão ratiotinativa com fundamento na realidade). A distinção de muitos atributos em Deus tem uma base factual na infinita plenitude do Ser Divino. Mesmo que a natureza de Deus seja em si mesma absolutamente simples, ainda podemos conhecê-la em uma multiplicidade de conceitos.  S. th. I 13, 4: nomina Deo attributa licet significent unam rem , tamen quia significant eam sub rationibus multis et diversis, non sunt synonyma  (embora os nomes atribuídos a Deus signifiquem a mesma realidade, mas porque a significam sob muitos e diversos aspectos, eles não são sinônomos).  A suposta diferença virtual deve ser mais exatamente determinada como distinctio virtualis minor, uma vez que uma importância da perfeição divina inclui a outra.” (Ludwig Ott, Fundamentals of Catholic Dogma)

3) “Com o século XIV, chegamos ao hesiquismo (hesychia, “quiet”), o maior conflito teológico da Igreja grega desde os velhos tempos do iconoclasmo. Gregory Sinaita primeiro espalhou essa doutrina, que ele havia aprendido com Arsênio de Creta. Intrinsecamente, não oferece nada muito notável. Baseia-se na conhecida distinção entre a vida religiosa prática, que purifica a alma limpando-a de suas paixões, e a vida contemplativa, que une a alma a Deus pela contemplação, e é, portanto, o ideal e o fim da perfeição religiosa . Quatro ou cinco estágios sucessivos conduzem o discípulo do modo de vida prático para o contemplativo. Mas, embora não houvesse nada de surpreendente nos princípios teológicos do novo ensino, o método apontado para chegar à contemplação perfeita lembrava as práticas dos faquires hindus e não passava de uma forma grosseira de auto-sugestão. O alegado esplendor divino que apareceu ao sujeito hipnotizado, e foi identificado com o que cercava os apóstolos em Thabor, não passava de uma ilusão comum. No entanto, esse brilho tórbico e o método onfalopsíquico de induzi-lo deram uma reputação generalizada aos hesicastas. Sem dúvida, os líderes do partido mantiveram-se afastados dessas práticas vulgares dos monges mais ignorantes, mas, por outro lado, espalharam difundir teorias teológicas perigosas. Palamas ensinou que, pelo ascetismo, era possível alcançar um corporal, isto é, uma visão sensorial, ou percepção, da Divindade. Ele também sustentou que em Deus havia uma real distinção entre a Essência Divina e Seus atributos, e identificou a graça como uma das próprias Divinas, tornando-a algo incriado e infinito. Esses erros monstruosos foram denunciados pelo Barlaam da Calábria, por Nicephorus Gregoras e por Acthyndinus. O conflito começou em 1338 e terminou apenas em 1368, com a solene canonização de Palamas e o reconhecimento oficial de suas heresias. Ele foi declarado o “santo médico” e “um dos maiores entre os Padres da Igreja”, e seus escritos foram proclamados “o guia infalível da fé cristã”. Trinta anos de controvérsia incessante e conselhos discordantes terminaram com uma ressurreição do politeísmo.” (https://www.newadvent.org/cathen/06752a.htm)

 4)O sistema de Palamas é inegavelmente uma novidade na história da teologia bizantina” (Padre Martin Jugie, citado em Gregory Palamas and the Making of Palamism in the Modern Age por Normal Russell, Oxford Univ. Press, 2019)

5) Os palamitas “concebem Deus de maneira antropomórfica [isto é, de maneira a ter atributos humanos) e colocam nele uma composição metafísica… de substância e de acidente” (cf. Padre Martin Jugie, citado em Gregory Palamas and the Making of Palamism in the Modern Age por Normal Russell, Oxford Univ. Press, 2019).

6) As “origens do palamismo podem ser encontradas no falso misticismo que começou a infiltrar-se no monasticismo bizantino aproximadamente na época em que a própria igreja bizantina rompeu os últimos elos que o haviam conectado à igreja romana.” (Padre Martin Jugie, citado em Gregory Palamas and the Making of Palamism in the Modern Age por Normal Russell, Oxford Univ. Press, 2019).

7) “O jesuíta François Richard traduziu para o grego o seu trabalho… no qual acusa Palamas de heresia. Ele pede aos cristãos ortodoxos que queimem suas (i.e. Palamas) Tríades, bem como o Serviço de Palamas… Em 1635.  Denis Pétau chamou os ensinamentos de Palamas… doutrinas ridículas… e entre os que concordavam com ele estavam os latinos e os uniatas… Enquanto isso, os estudantes gregos do Colégio de Santo Atanásio em Roma eram empurrados para  anatematizar os santos anti-latinos da Igreja Ortodoxa, como Palamas.” (John Sanidopoulos, Gregory Palamas in Eastern and Western Theological Thought: A Summary)

8) Artigo do Padre Daniel Pinheiro sobre os diversos graus de Magistério.

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