Quem autorizou, afinal, o culto bizantino a Gregório de Palamas?

Gregory Palamas: Two Parallel Eras | PEMPTOUSIA

Há alguns dias, nosso amigo e colaborador André Messias iniciou uma interessante discussão a respeito do culto que atualmente algumas comunidades católicas orientais (especialmente os melquitas) atribuem à figura do teólogo da Igreja Ortodoxa Grega, Gregório de Palamas (1296—1359). Palamas foi um monge cismático de Monte Atos que, tendo vivido pouco depois do Grande Cisma do Oriente, rejeitava abertamente tanto a doutrina do Filioque quanto a primazia do bispo romano. Mesmo com a Constituição Benedictus Deus do Papa Bento XII tendo, em 1336, definido dogmaticamente que os santos nos Céus contemplam a própria Essência Divina” (“Essentiam Divinam visione intuitiva et etiam faciali”) e com Eugênio III tendo formalmente condenado em 1148 qualquer proposição que sustentasse uma distinção real entre a Essência Divina e os Atributos Divinos, Palamas ensinava que a Essência de Deus era não somente inacessível aos homens (que, por sua vez, poderiam após sua morte apenas contemplar as “energias” de Deus), como também realmente distinta das supracitadas “energias divinas”. Apesar de sua adesão ao Grande Cisma e suas heresias notórias, Gregório atualmente é venerado como “santo” por algumas comunidades orientais que retornaram à unidade da Igreja.

Para não ser injusto com os melquitas e demais grupos que veneram a Gregório de Palamas, no entanto, fomos em busca das razões pelas quais o culto de Palamas poderia ser justificado. Sendo a canonização de Palamas em 1368 pelas autoridades cismáticas inválida, não há qualquer documento oficial da Igreja que o tenha formalmente canonizado. Alguns, no entanto, alegam que supostamente alguns Papas teriam posteriormente permitido seu culto.

Em 2011, sem citar fonte alguma, por exemplo, Rafael Vitola Brodbeck sugeriu que Pio XII teria sido o responsável por liberar o culto a Gregório de Palamas, popularizando essa opinião entre os católicos de Língua Portuguesa com acesso à internet. Essa informação, no entanto, não é encontrada em qualquer outro lugar e não pode ser levada a sério a menos que Brodbeck cite alguma fonte para sustentá-la. A católica melquita Martha Liles, por outro lado, nos fornece uma hipótese mais plausível sobre quando o culto ao cismático Palamas teria ressurgido (das trevas) entre os melquitas. Segundo ela, a readmissão de Palamas no Calendário Católico Bizantino teria sido realizada somente no Sínodo Greco-Melquita de 1971. Ela diz que, no entanto, nem todos os teólogos melquitas concordam com com o mérito dessa readmissão: alguns dizem “sim”, outros dizem “não”, e outros estão incertos. Em um de seus livros, o “apologista” neoconservador Dave Armstrong confirma os dados apresentados por Liles.  Se assim for e este Sínodo tiver sido aprovado pelo Papa, a reinclusão de Palamas no calendário católico pelo Sínodo Greco-Melquita de 1971 tem tanta autoridade quanto o Sínodo de Zamosk de 1720 tinha ao excluí-lo de seu calendário (afinal, Zamosk foi aprovado por Bento XIII, reafirmado por Bento XIV, reforçado por Pio IX e pelo Sínodo de Lvov em 1891, e, por fim, elogiado em diversos aspectos também por Pio XII).

Ora, considerando o cenário atual da Igreja, onde, em nome do “ecumenismo”, os membros do alto clero dizem ser um “pecado grave” tentar converter os cismáticos da Igreja Ortodoxa, não é absurdo se supor que a readmissão dos “santos” dos cismáticos no calendário dos católicos orientais tenha também sido influenciada pelo espírito do aggiornamento. Vitoriosos no Concílio, os membros da Nouvelle théologie conseguiram aos poucos convencer os melquitas (assim como os demais clérigos da Igreja) a abandonar a posição tomista anti-palamita que até então tinha, por conta dos escritos do Pe. Martin Jugie, tornado-se hegemônica em toda a Igreja. De fato, é baseado no apoio de Henri de Lubac, Jean Danielou e Louis Bouyer que o principal site melquita dos Estados Unidos tenta legitimar a readmissão de Palamas em seu calendário. Formalmente contrários à latinização, o episcopado católico oriental se deixou influenciar de tal forma pelos ensinamentos da nova teologia dos latinos, que, adotando o ecumenismo, reformou seu calendário litúrgico para incluir nele também os “santos” dos cismáticos.

A transição da tradicional posição anti-palamita dos tomistas à posição ecumenicista pró-palamita dos escritores da Nouvelle théologie foi gradual. Diz-se que, aparentemente, o Papa Paulo VI ainda levava em consideração os escritos do Pe. Martin Jugie sobre o tema. Em eventos “ecumênicos” com os cismáticos, no entanto, o Papa João Paulo II foi o primeiro a falar positivamente do palamismo, citando Palamas como um “santo” [1]. Além de reforçar a estrita relação entre o palamismo e o ecumenismo, tais falas indubitavelmente não se enquadram no critério que o Concílio Vaticano I definiu acerca da infalibilidade papal. Ademais, mesmo que o Vaticano aprovasse alguma resolução litúrgica citando Palamas como “santo”, isso não significaria automaticamente que Palamas seja, de fato, um “santo”. Afinal, a Santa Sé já reconheceu oficialmente Santa Filomena e São Simão de Trento como “santos” e depois voltou atrás.

Cabe, portanto, ao católico oriental se perguntar: É razoável cultuar um herege cismático?

Que Nossa Senhora proteja a todos nós.

Gabriel Klautau Miléo

Editor-Chefe do SalveRoma.

[Edição nº 1]: Fui informado que a questão é ainda mais complicada pois, além do Sínodo de Zamosk ter sido ratificado por pelo menos quatro Papas diferentes, as antologias gregas aprovadas pela Santa Sé antes do Concílio Vaticano II igualmente haviam excluído por unanimidade o seu culto. Até o Concílio, nem mesmo os próprios católicos orientais admitiam o palamismoSó em 1974 é que o Vaticano, em meio às novas reformas e já sob o espírito do aggiornamento, permitirá o culto desse inimigo da Fé.

Notas

[1] Papa João Paulo II, Homília em Éfeso, 30 de Novembro de 1979; Audiência Geral de 14 de Novembro de 1990; Audiência Geral de 12 de Novembro de 1997; Audiência Geral, 19 de Novembro de 1997; Jubileu dos cientistas.

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