Consagração na epiclese ou durante a Oração Eucarística?

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André Messias

Em 2018, uma das páginas mais populares entre os melquitas do Brasil publicou o seguinte post:

Para um leigo pode não parecer muita coisa, mas trata-se de uma grave heresia e mais grave ainda se foi dita mesmo pelo Patriarca Emérito. O Catolicismo teve início no Oriente, em Jerusalém, e mesmo o Papa iniciara seu governo por lá, assentando sua Sede Episcopal primeiro em Antioquia. Grandes santos surgiram de comunidades de catolicismo oriental, a saber: São João Crisóstomo, São Gregório Nazianzeno, São Basílio Magno, o grande Santo Atanásio, entre outros.

São Pedro, chegando em Roma, permanecera na região como Pontífice Máximo até seu martírio. Após São Pedro, vieram vários sucessores que existem até hoje, dentre eles São Lino e São Clemente; esses sucessores ficaram conhecidos como “Papas”. São Cirilo de Alexandria chamara o Papa de “Arcebispo, pai e patriarca de todo o orbe terrestre”. O Papa, segundo o Catecismo, tem o sumo grau de dignidade e a plenitude de toda jurisdição em virtude de direito divino. Tendo o Papa como chefe da Igreja Romana, ela torna-se, por conseguinte, digna de obediência obrigatória por parte de todos os fiéis, comunidades e Igrejas, conforme ensina na Constituição Pastor Aeternus “Ensinamos, pois, e declaramos que a Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas, e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é imediato. E a ela [à Igreja Romana] devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja”.

Se o Papa segue os critérios necessário para ensinar algo, ele, de fato, consegue ensinar infalivelmente e universalmente. É necessário dizer também que não somente o Magistério Extraordinário (quando o Papa anuncia um dogma) é infalível, mas também o Magistério Ordinário, desde que o Papa esteja seguindo os critérios necessários, conforme diz a Constituição Dei Filius: “Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer”.

Tendo em vista erros teológicos graves ocorridos no oriente, após a maior parte da Igreja Oriental ter renunciado ao catolicismo, o Papa Bento XII escreveu uma carta, condenando-os, especialmente erros vindos da parte dos Armênios. Dentre esses erros consta o seguinte: “Os armênios dizem que as almas das crianças batizadas e as almas dos homens altamente perfeitos, depois do juízo universal, entrarão no reino dos céus, onde ficarão livres de todo mal penal desta vida. Não verão, porém, a essência divina, porque nenhuma criatura a poderá ver; mas verão a claridade de Deus que brota da sua essência, assim como a luz do sol brota do sol e, todavia, não é o sol.” e “igualmente todos os armênios comumente dizem e sustentam que em virtude das palavras que se encontram no seu cânon da Missa, quando o sacerdote diz: ‘Tomou o pão e rendeu graças, o partiu e deu a seus santos eleitos e discípulos, sentados à mesa com ele, dizendo: Tomai e comei todos, este é o meu corpo …; tomando do mesmo modo o cálice … dizendo: Tomai e bebei dele todos, este é o meu sangue … para a remissão dos pecados’, eles não acreditam que é produzido, nem pretendem eles produzir, o corpo e o sangue de Cristo (…) E depois das mencionadas palavras, o sacerdote diz muitas orações recolhidas no cânon deles, e depois das ditas orações chega ao lugar onde no cânon deles é dito assim: ‘Nós te adoramos, te suplicamos e te pedimos, ó Deus benigno, envia sobre nós e sobre esta oblação o dom a ti coessencial, o Espírito Santo, em virtude do qual tu tornas o pão abençoado verdadeiramente o corpo de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo’ – e as acima referidas palavras, o sacerdote as diz três vezes, e depois o sacerdote diz sobre o cálice e o vinho bento: ‘Tu tornas verdadeiramente o sangue de nosso Senhor Salvador Jesus Cristo’, e em virtude destas palavras, a assim chamada ‘epíclese’, eles creem que estão consagrados o corpo e o sangue de Cristo.”

O Papa Eugênio IV, durante o Concílio de Florença, querendo deixar as coisas mais claras, escrevera na Bula Exsultate Deo alguns ensinamentos a serem passados aos orientais sobre o Sacramento da Eucaristia: “A forma deste sacramento são as palavras com as quais o Salvador o produziu. O sacerdote, de fato, produz este sacramento falando in persona Christi. E em virtude dessas palavras, a substância do pão se transforma no corpo de Cristo e a substância do vinho em sangue” e na Bula Cantate Domino o mesmo Papa diz: “Mas, já que no decreto para os armênios acima apresentado não se fala da fórmula que a santa Igreja romana, confirmada pela doutrina e pela autoridade dos Apóstolos Pedro e Paulo, sempre usou na consagração do corpo e do sangue do Senhor, julgamos dever apresentá-la aqui. Eis a fórmula usada na consagração do corpo e do sangue do Senhor: ‘Este é o meu corpo’; e naquela do sangue: ‘Este é o cálice do meu sangue, da nova e eterna aliança – mistério da fé –, derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados”.

Ora, os erros apresentados pelo Papa Bento XII e as soluções apresentadas pelo Papa Eugênio IV não são meramente questões pessoais do Papa, mas infalíveis e universais. Fora permitido aos orientais que entraram em comunhão com Roma que pudessem continuar com seus ritos sem mudanças substanciais, com sua teologia intocada e com certa autonomia de decisão. Mas não é permitido a ninguém na terra confrontar os ensinamentos infalíveis vindos de Roma! Infelizmente as comunidades orientais contemporâneas não querem se adequar totalmente ao que ensina a Igreja Católica; pelo contrário, se adequam à alguns dos ensinamentos dos cismáticos e se afastam cada vez mais da doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, afirmando que a essência divina é inacessível, e que a consagração não se dá pela ação das palavras “Isto é o meu Corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”, não compreendendo o ensinamento dos Santos Padres e descartando as orientações inerrantes do Sumo Pontífice.Não nos outorgando autoridade alguma, não colocamos em dúvida serem verdadeiramente católicos os orientais que estão em comunhão com Roma; reconhecemos que os ritos orientais todos possuem a mesma dignidade do Rito Romano; reconhecemos que a oração do Cordão de Orações (ou Oração de Jesus, ou Oração do Coração) é saudável, e mesmo revelada por Deus por meio das escrituras- se não for rezada com a teologia herética palamita; reconhecemos que a teologia dos Santos Padres orientais é católica- e que deve ser submetida ao Magistério no que tiver erros- , assim como dos Santos Padres latinos. Todavia, colocamos em dúvida a ortodoxia de alguns ensinamentos populares entre os católicos orientais, e ficamos chocados com a aparente seletividade em aderir aos ensinamentos da Igreja Católica.

Aqui colocamos um texto com citações inclusive de de Padres orientais confirmando o dito: http://www.newliturgicalmovement.org/2020/05/east-west-disagreements-about-epiclesis.html?m=1#.XrgLWpBv-yUk

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