Os cismáticos, Gregório de Palamas e os erros da Rússia

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Autor: André Messias

Em virtude da difusão dos princípios ecumenicistas em nossa sociedade e no seio da Igreja, não é raro encontrar pela internet alguns católicos que demonstram certa afeição pelos cismáticos orientais auto-intitulados “ortodoxos”. Esse tipo de afeição além de ser por si só escandalosa – já que no Concílio de Florença já foi deixado claro que os Cismáticos estão fora da Igreja e que se não se arrependerem irão para o inferno – demonstra uma grande ignorância da parte dos mesmos, que, por sua vez, demonstram desconhecer quão longe da verdade os cismáticos estão. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, já dizia que todo o cisma leva a uma heresia e, no caso dos cismáticos do oriente, o cisma o levou a várias, mas procuraremos nos focar na sua heresia mais popular que, de certo modo, foi base para o modernismo condenando por São Pio X na Encíclica Pascendi: o Palamismo. Deixaremos no final um texto excelente para quem quiser se aprofundar no tema.

Santo Tomás vs Gregório de Palamas: A distinção entre essência e energia em Deus

Entre os erros propagados pelas seitas do Oriente, talvez os mais perniciosos sejam aqueles que estão associados às chamadas doutrinas palamitas.

Gregório de Palamas (aclamado como “santo” pelos cismáticos) pregava uma teologia diametralmente oposta a de Santo Tomás. O Doutor Angélico, baseado na Revelação, pregava que, na outra vida, os Bem Aventurados desfrutariam de algo chamado de “Visão Beatífica” que consiste em vermos Deus Face a Face no Paraíso. Escreve o Aquinate:

“Está escrito: Nós O veremos como Ele é (1 João II, 2). Respondo que: Como tudo é conhecível de acordo com a realidade, Deus, que é um ato puro, sem qualquer mistura de potencialidade, está em Si Mesmo supremamente conhecível… Portanto, deve ser absolutamente concedido que os bem-aventurados vejam a essência de Deus.” (Santo Tomás de Aquino, Summa Theologicae, I, Q.12, A.1).

Vale ressaltar que essa não é apenas uma “mera tese tomista” da qual os católicos podem livremente discutir e discordar, uma vez que, no final de sua vida, o Papa João XXII condenou a tese dos que defendem a negação da doutrina da visão beatífica. Ademais, várias encíclicas papais concedem às doutrinas de Santo Tomás supereminência sob as demais (cf. Papa Pio IX, Studiorum Ducem; Pio X, Doctoris Angelici; etc).

Gregório Palamas, por sua vez, faz uma distinção entre a Essência e a Energia Divina.

Diferente do que ensinava Santo Tomás, Palamas acreditava que a Essência Divina estaria em um grau infinitamente distante de nós: “A essência superessencial de Deus não deve, portanto, ser identificada com as energias, mesmo com as que não têm começo; daí resulta que não é apenas transcendente a qualquer energia, mas que as transcende ‘em um grau infinito e infinito. número de vezes ‘, como diz o divino Máximo.” (Gregório de Palamas, Tríades, p. 96).

Para o leitor com dificuldade para entender a linguagem de Palamas, sugerimos que imagine a Essência Divina como o sol e a Energia Divina como os raios.

Para Palamas, portanto, nós jamais veríamos a Essência Divina (nem mesmo no Céu), mas apenas sua Energia. É a negação da doutrina católica da visão beatífica dos bem-aventurados.

As implicações da doutrina de Palamas são ainda mais absurdas. Deus torna-se tão transcendente que a sua própria pessoalidade é colocada em xeque. Nosso Senhor não é mais o Amigo da humanidade e o Consolador dos homens mas sim uma Energia Amorfa que só podemos acessar por um puro ascetismo que prega um completo esvaziamento da própria vontade e a união com essas energias.

No imaginário “céu ortodoxo”, não encontramos nenhuma personalidade como a conhecemos, nem amor, nem pensamento, nem verdade, nem pureza e nem oração, mas apenas uma escuridão divina além de todo ser, essência e nome. Em outras palavras: a negação de tudo o que agora consideramos humano. Com um céu como esse, quem precisa de um inferno?

Todavia, há ainda outra consequência sutil da doutrina palamita que perpassa pelo fato dos cismáticos ignorarem a doutrina católica sobre a preponderância da inteligência sobre a vontade e que acabará, por sua vez, desembocando no modernismo.

Cismáticos como origem do Modernismo

A heresia modernista talvez seja a maior heresia dos últimos tempos na Igreja. Essa heresia surge no início do século XX, mas talvez tenha origens bem mais remotas… O Modernismo prega uma completa dissolução do aspecto doutrinal da Religião propagando vários erros. Focaremos aqui no principal: a noção modernista do “Deus imanente”. A Igreja sempre pregou que a presença de Deus na alma humana não era algo substancial (como se Deus naturalmente estivesse presente na nossa essência), mas que sua presença acontece como um Agente Criador.

Santo Tomás ensina sobre isso da seguinte forma:

“Eu respondo que Deus está em todas as coisas; não, de fato, como parte de sua essência, nem como um acidente; mas como um agente está presente naquilo sobre o qual trabalha… Agora, já que Deus causa esse efeito nas coisas, não apenas quando eles primeiro começam a existir, mas enquanto são preservados, enquanto a luz é causada no ar pelo sol enquanto o ar permanece iluminado, portanto, enquanto uma coisa existe, Deus deve estar presente nela, de acordo com seu modo de ser, mas o ser é o mais íntimo de cada coisa e, fundamentalmente, inerente a todas as coisas, pois é formal em relação a tudo o que é encontrado em uma coisa, como foi mostrado acima (Q. 7, A.1), deve ser que Deus esteja em todas as coisas e interiormente” (Santo Tomás de Aquino, Summa Theologicae, Q. 8, A.1)

Em suma, Deus nos sustenta na existência, mas nós não o temos como parte de nós e sim como a fonte do nosso ser.

Partindo disso, a Fé não seria um sentimento do interior de nossa alma vinda de um Deus imanente, mas uma virtude infusa por Deus em nossa alma no momento em que somos criados e que depende de um assentimento intelectivo nosso. A conversão é uma adesão livre à Verdade Revelada (reforçada por razoáveis sinais de credibilidade) e não o fruto de um mero sentimento interior vindo de um Deus imanente em nós. Nesse aspecto, a doutrina é fundamental.

Os modernistas, por sua vez, ensinam justamente o contrário, como nos lembra São Pio X:

“O sentimento religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da subconsciência, é pois o gérmen de toda a religião e a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião. (…) Fica-se pasmo em se ouvindo afirmações tão audaciosas e sacrílegas! Entretanto, Veneráveis Irmãos, não é esta linguagem usada temerariamente só pelos incrédulos. Homens católicos, até muitos sacerdotes, afirmaram estas coisas publicamente, e com delírios tais se vangloriam de reformar a Igreja. Já não se trata aqui do velho erro, que à natureza humana atribuía um quase direito à ordem sobrenatural. Vai-se muito mais longe ainda; chega-se até a afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto inteiramente espontâneo da natureza. Nada pode vir mais a propósito para dar cabo de toda a ordem sobrenatural.” (São Pio X, Pascendi).

E qual seria a origem dos delírios modernistas? Vamos ver algo interessante que diz John Meyendorff (tradutor das tríades de Palamas, e possivelmente o mais influente palamita do século XX):

“O verdadeiro propósito da criação não é, portanto, a contemplação da essência divina (que é inacessível), mas a comunhão na energia divina, a transfiguração. e transparência à ação divina no mundo.” (Meyendorff, Teologia Bizantina p.133)

Isso ocorre porque o Divino faz parte da natureza do homem desde o início de sua existência:

“Este conceito de salvação é ele próprio baseado em uma compreensão do ser humano que vê o estado natural do homem como composto de três elementos: corpo, alma e Espírito Santo…. O Espírito não é visto aqui como uma graça ‘sobrenatural’ – adicionada a uma humanidade criada de outra forma ‘natural’ – mas como uma função da própria humanidade em seu relacionamento dinâmico com Deus, a si próprio e ao mundo.” (Meyendorff, Catholicity and the Church, p.21).

Essa teologia herética cismática prega o mesmo imanentismo e a confusão entre ordem natural e sobrenatural que o modernismo. Qual a possibilidade de ligação entre elas? Bom é certo que com a Revolução Russa de 1917, vários pensadores cismáticos como Nikolai Berdiaev, Bulgakov (do movimento eslavófono), Vladimir Losskey, etc, vieram para o Ocidente, ou, mais especificamente, para Paris. Muitos deles organizaram-se em grupos de estudo de teologia oriental e lançaram livros sobre o assunto. Quem estava envolvido e interessado com tudo isso? Yves Kongar, Hans Von Balthasar, Henri de Lubac e outros modernistas. Os pensamentos heréticos russos foram trazidos para o Ocidente na mesma época da explosão do Modernismo.

Nossa Senhora disse em Fátima que “se a Rússia não se consagrar os erros dela se espalharão pelo mundo”. Embora muitos neoconservadores afirmem ser o comunismo esse erro, deve-se destacar que:

1) O comunismo não surgiu na Rússia;

2) Na época da revelação à Nossa Senhora, o comunismo ainda não havia sido implementado ali.

3) Nossa Senhora fala de erros no plural.

Ora o que causou mais estrago ao mundo? O comunismo que quase desapareceu como sistema político após a queda do muro de Berlim (dando lugar à social-democracia) ou o modernismo liberal que ceifou e ceifa milhões de almas?

Portanto, caros neo-conservadores, pensem bem antes de defender os cismáticos. Se todos esses motivos não lhes convencem, cabe a vocês responderem a Deus no dia do juízo por defenderem aqueles que foram os responsáveis pela propagação dos erros que degradaram o mundo em que vivemos.

 

Texto para aprofundar:

http://coalitionforthomism.blogspot.com/2010/09/and-never-twain-should-meet-orthodox.html?m=1

 

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