Quais as possíveis consequências da retirada da autoria de Bento XVI do livro do Cardeal Sarah?

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Na manhã desta terça-feira (14), o mundo católico foi surpreendido pela notícia anunciada pelo secretário particular de Bento XVI, o Arcebispo Georg Gänswein, de que o Papa Emérito não havia autorizado ser co-autor do livro contra o fim do celibato. Georg também descartou completamente a possibilidade de ter ocorrido má-fé do Cardeal Sarah, afirmando que ocorreu apenas um mal-entendido. A participação (colaboração) de Bento XVI permanecerá inalterada no livro, porém sua autoria será removida.

A decisão foi decepcionante para os meios conservadores e tradicionalistas. Já para os clérigos e jornalistas liberais foi motivo de júbilo. Mas, afinal de contas, quais são as consequências desta decisão?

1. Cardeal Sarah fica “entregue aos lobos” dos difamadores liberais: 

O cardeal africano não esperava que o Papa Emérito fosse pedir a retirada de sua co-autoria do livro por eles escrito. Muitos meios liberais já começaram a iniciar teorias da conspiração alegando que os conservadores (juntamente dos tradicionalistas) estariam conspirando um plano secreto contra o papado de Francisco. O cardeal Sarah seria, para estes loucos conspiracionistas, um agente deste plano que estaria tentando “manipular” o idoso Bento XVI. Essa bobagem histérica está muito presente no meio intra-eclesiástico (basta analisar o Twitter dos correspondentes vaticanos dos principais jornais).

Ainda faz pouco tempo que a notícia foi anunciada, porém já foi tempo o suficiente para o gigantesco jornal The Guardian publicasse uma matéria onde afirma que “Os partidários de Francisco alegaram que o cada vez mais frágil Bento, 92 anos, havia sido ‘manipulado’ por membros de sua comitiva de direita, escrevendo algo que representava um ataque frontal a Francisco.” Tais acusações são mentiras, difamações dos modernistas que odeiam a Tradição da Igreja Católica.

2. Cardeal Sarah e a ala conservadora perdem chances num próximo conclave:

Com o anúncio do livro escrito tendo Bento XVI como co-autor, muitos comemoraram a notícia. Além de defenderem as teses corretas, o livro serviria para “lançar o candidato” de Bento XVI e dos demais conservadores num próximo conclave: o Cardeal Sarah. Infelizmente, em menos de um dia, tudo mudou.

Com as difamações, o Cardeal muito provavelmente pode ter perdido suas chances de se eleger, principalmente se considerarmos os cardeais “moderados” que são a maioria “indecisa” dos votantes. Até agora, os nomes mais fortes que são cogitados são: Cardeal Parolin (Secretário de Estado da Santa Sé, considerado “moderado” porém acusado de estar entregando a Igreja nas mãos dos comunistas da China pelo Cardeal Zen), Cardeal Tagle (da ala progressista da Igreja Católica) e o Cardeal Sarah (da ala conservadora, que agora foi completamente abalado, isto é, se é que não perdeu todas as suas chances…).

3. O fracasso e completo descrédito da hermenêutica da “continuidade”:

Com o Concílio Vaticano II, a Igreja ficou dividida em três ramos principais: os conservadores, os tradicionais e os modernistas. Os conservadores defendem que os documentos do Concílio não apresentam erros, mas apenas estão sendo mal interpretados. Eles defendem a hermenêutica da “continuidade” dos documentos conciliares contra a hermenêutica da “ruptura”. Os tradicionais defendem que o Concílio teve erros e que tais erros não são resolvidos com mera “interpretação”. Para esses, é necessário a correção formal ou a supressão destes documentos contraditórios. Já para os modernistas, que são hereges combatidos por São Pio X mas que se infiltraram na Igreja e dominaram o Concílio Vaticano II, a Igreja deve ser revolucionada e totalmente “modernizada”, rompendo e desprezando a Tradição.

Bento XVI é um dos principais conservadores vivos. Cardeal Sarah também. Com este ato de Bento, os conservadores se enfraquecem ainda mais. A posição conservadora está completamente destroçada e largada no descrédito. Esta posição pressupõe a ortodoxia do intérprete.  Este é o problema de deixar ao arbítrio do intérprete (no caso, do Papa) o sentido dos contraditórios documentos conciliares. Se o Papa for mais conservador, irá interpretá-los de forma conservadora, mas se for mais ‘‘progressista” irá interpretar de forma mais ‘‘progressista”. Em síntese: a tese da hermenêutica da ‘‘continuidade” não resolve o problema conciliar, pelo contrário, ilude os católicos a pensar que está tudo bem (como se pensava no pontificado de Bento XVI e agora se escandalizam com o de Francisco).

A tese mais correta é a tese dos tradicionais: o Concílio Vaticano II rompeu com a Tradição bi-milenar da Igreja Católica pela promulgação de seus documentos contraditórios. A saída para esta crise é pela a supressão/correção dos documentos conciliares.

O próprio Cardeal Sarah reconhece que, se o Papa Francisco aceitar as mudanças que os bispos e demais clérigos estão querendo, a ruptura com a Tradição promovida pelo Concílio Vaticano II e pelos papas pós-conciliares ficará ainda mais clara:

”Há um elo ontológico-sacramental entre sacerdócio e celibato. Qualquer enfraquecimento deste elo colocaria em discussão o magistério do Concílio [Vaticano II] e dos Papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Suplico ao Papa Francisco que nos proteja definitivamente de tal eventualidade, vetando qualquer enfraquecimento da lei do celibato sacerdotal, mesmo limitado a uma ou outra região». Sarah chega a definir uma «catástrofe pastoral, uma confusão eclesiológica e um ofuscamento da compreensão do sacerdócio» a eventual possibilidade de ordenar homens casados. Bento XVI, em sua breve contribuição, refletindo sobre o argumento remonta às raízes hebraicas do cristianismo, e afirma que o sacerdócio e o celibato estão unidos desde o início da «nova aliança» de Deus com a humanidade, estabelecida por Jesus. E recorda que já «na Igreja antiga», isto é,  no primeiro milênio, «os homens casados podiam receber o sacramento da ordem somente se estivessem comprometidos a respeitar a abstinência sexual.”

4. A real chance do Papa Francisco conceder o ‘viri probati‘ para os locais onde há “necessidade pastoral” (que, na prática, podem ser quase todos):

O Papa Francisco já declarou ser pessoalmente contra a abolição total do celibato obrigatório. Contudo, ele afirmou que há possibilidade de conceder o viri probati para locais remotos e quando houver “necessidade pastoral”:

— “Pessoalmente, penso que o celibato é uma dádiva para a Igreja. (…) Não estou de acordo com permitir o celibato opcional. Haveria qualquer possibilidade apenas nos lugares mais remotos; penso nas ilhas do Pacífico… […] Haveria necessidade pastoral, e o pastor deve pensar nos fiéis”.

Como a crítica que estava no livro sofreu um abalo grave com a retirada da autoria do Papa Emérito, Francisco agora tem bem mais liberdade para decidir tal questão.

Os bispos da Igreja que estavam reunidos no Sínodo da Amazônia votaram esmagadoramente pelo fim do celibato obrigatório na Amazônia. Os 185 membros do Sínodo da Amazônia realizado de outubro consideraram a questão de padres casados supostamente sob a perspectiva das “necessidades pastorais” da região amazônica. Em seu documento final, os membros do Sínodo sugeriram, por uma votação de 128 a 41, que Francisco permitisse que os bispos da região ordenassem os diáconos atuais como padres, caso as circunstâncias o merecessem.

Os bispos, muito influenciados pela ala neomodernista (de longe, a mais influente na Igreja neste pontificado), colocaram exatamente a exceção que teria dito o Papa Francisco na entrevista: ”necessidades pastorais”.

5. A força da pressão dos liberais (neomodernistas) fica cada vez mais evidente:

O Twitter foi a rede social onde, desde a noite de ontem, os correspondentes liberais dos grandes jornais começaram a questionar a autoria de Bento e pressioná-lo a retirar seu nome do livro contra o fim do celibato. Noticiamos essa pressão que estava sendo feita por aqui.

Não só os jornalistas (que são, em extrema maioria modernistas), como também os membros do alto clero (cardeais e bispos) colaboram formalmente com a heresia (e o número é assustador). O Papa Francisco faz um pontificado péssimo, suas indicações para o colégio de cardeais não são boas e está cada vez mais comum vermos a impunidade reinar. O combate à heresia parece não mais existir, isso já vem desde o fim do Santo Ofício e das reformas do Concílio Vaticano II, este pontificado agravou tal problema.

Os católicos parecem ter sido entregues aos lobos e nunca foi tão evidente a necessidade dos institutos tradicionais, da doutrina e da missa de sempre. A Missa Tridentina é a saída. Dom Lefebvre sempre esteve certo.

Rezemos pela Igreja. Rezemos pelo Papa Francisco.

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