O Big Bang, a Relatividade e a criação

Einstein-and-Lemaitre

André Messias

Quando Santo Tomás começou a usar a filosofia do Pagão Aristóteles ele foi, imediatamente, repudiado por muitos do ambiente acadêmico da época. O Aquinate, todavia, soube aproveitar o que havia de melhor na Filosofia Aristotélica e a aperfeiçoou tornando-a Filosofia da Igreja. Esse episódio da vida do Doutor Angélico, ensina-nos como é possível absorver aspectos bons de uma ciência sem abandonar sua Fé para segui-la. No seguinte texto, buscaremos demonstrar como a Teoria da Relatividade Einsteana e o Big Bang podem ser encaixados com a visão da criação católica de maneira quase perfeita e como essas teorias, diferentes do conto de fadas do Darwinismo, apontam, de forma quase infalível, para uma criação do universo pelas mãos Divinas. O presente texto se dividirá em três partes: Explicação da visão da Igreja sobre a criação e posicionamento do autor do texto; uma breve explicação da Relatividade geral e do Big Bang e, por fim, uma explanação sobre como as duas teorias encaixam-se no relato da criação de Gênesis.

Visão da Igreja sobre a criação

Antes de mais nada, nunca é demais repetir que a Igreja interpreta o Livro de Gênesis como sendo Literal. Literal não significa “pé da letra”, e sim, seguir o sentido que o Autor Sagrado quis passar. Leão XIII – citando Santo Agostinho – nos dá uma dica de como seguir essa interpretação na prática:

“Na interpretação das Sagradas Escrituras não é legítimo se distanciar do sentido literal óbvio, a não ser que a razão nos proíba ou alguma necessidade nos force a deixá-la.” (Providentissimus Deus – Leão XIII).

Partindo disso, já mostramos que a Igreja nos obriga a crer em Adão e Eva como personagens históricos nos textos sobre evolução, mas uma pergunta falta a ser respondida: e os dias de Gênesis como interpretar? A Comissão Bíblica no Papado de São Pio X – no mesmo texto que condena como herética a interpretação que nega a Literalidade de Adão e Eva e sua existência histórica- nos diz o seguinte sobre os como interpretar os dias da criação na sua sessão de perguntas e respostas:

“Dúvida 8: Se na denominação e distinção dos seis dias dos quais fala o capítulo 1 do Gênesis se pode tomar o “dia” ora em sentido próprio, como um dia natural, ora em sentido impróprio, como um espaço indeterminado de tempo, e se é lícito discutir livremente sobre essa questão entre os exegetas.

Resposta: Sim.” – Pontifícia Comissão Bíblica, 1909. Denzinger, Manual de Credos e Definições.

A comissão permite a interpretar os dias tanto como um período de 24h quanto como um período de tempo indeterminado. Essa postura da comissão, encaixa-se com a tradição Católica, a qual conta com as mais variadas interpretações dos Santos sobre esse assunto. Não é o objetivo do trabalho trazer todas essas interpretações. Essas estão bem elucidadas no texto do professor Fábio Vanini no site da Montfort- que deixaremos na descrição. Nesse trabalho, traremos apenas a visão que o autor do artigo mais se identifica: a de Santo Agostinho de Hipona.

Santo Agostinho, Santo Tomás e a criação

Santo Agostinho, divergindo um pouco de alguns dos Santos, defendia que toda a criação se deu instantaneamente – Comentário ao Gênesis. Santo Agostinho, aproximadamente 390,, Ed. De 2005 por Paulus, São Paulo, Brasil. O Santo argumentava que uma parte do universo depende da outra, especialmente a inferior da superior sendo impossível uma criação em partes. Isso tudo partindo da Sagrada Escritura: “Essas são as gerações do céu e da terra quando eles foram criados no dia em que o Senhor fez o céu e a terra, e toda a planta do campo” (Gn II, 4-5). As plantas do campo foram criadas apenas no terceiro dia. Portanto, não se tratam de dias numa ordem temporal. Seriam, para Santo Agostinho, os seis dias uma ordenação natural e ontológica das seis classes de seres, conhecidos na natureza angélica. Não são dias sucessivos no sentido temporal, mas numa ordem natural – Questiones Disputatae De Potentia Dei. S. Tomas de Aquino, aproximadamente 1265, Ed. de 1952 por The Newman Press, Westminster, Maryland, EUA.

Para compreender isso analisemos o início de Gênesis “No princípio, Deus criou o céu e a terra.” (Gn 1, 1). Primeiramente, encontramos o problema no significado da palavra “princípio”, pois, se atribuímos um significado de tempo, estaríamos prendendo Deus ao tempo já que ele só começou a Criar após o princípio- daí os Cabalistas Judeus interpretarem dessa passagem que o princípio(nada) criou deus tornando a divindade criatura. O significado de princípio, portanto, é outro e encontra-se em qualquer dicionário como “Causa primeira de alguma coisa a qual contém e faz compreender suas propriedades essenciais ou características; razão”. E qual seria essa “causa primeira” ou “razão” de tudo o que existe? São João nos esclarece no início de seu Evangelho quando fala “No Princípio, era o Verbo”. Nosso Senhor Jesus Cristo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a Sabedoria Eterna é o Princípio onde tudo foi criado. Isso é algo óbvio quando lembramos que o Filho, nada mais é, que o Reflexo do Pai Gerado pela via do Conhecimento sendo, por isso, chamado também de Sabedoria.

Tudo foi criado no Verbo antes do mundo existir. Santo Agostinho, em ensinamento estendido por Santo Tomás, explica que “Céu” e “Terra”, descritos como criados no primeiro versículo de gênesis, seriam, respectivamente, céu empíreo e anjos e matéria primordial informe. Santo Tomás explica que não pode existir Matéria sem forma sendo essa matéria “informe”, na verdade, matéria sem forma especifica, apenas com forma substancial elementar, de corporeidade. Esse nível de forma é o mais baixo em uma escala de perfeição, sendo o mais próximo da potência- A Natureza da Matéria em São Tomas de Aquino. Paulo Faitanin, 2005. Revista Aquinate, n°1, pg. 21-43. http://www.aquinate.net/revista/edicao_atual/Artigos/01/edicao.php.

Ademais, Sobre essa Matéria Santo Agostinho afirma que ,após a criação instantânea do Universo, a partir da matéria primordial informe, deu-se a informação especifica, ou seja, a diversificação em formas elementares (água, ar, fogo e terra). Sucessivamente, deu-se a informação das formas específicas criadas, tendo por matéria os elementos preexistentes, por meio, inicialmente, de distinções. Isso decorre do princípio escolástico de que, se existe um ser composto, seus elementos existem, necessariamente, anteriormente a ele. Isso significa que essa matéria informe e vazia tinha, em potência, capacidade de gerar tudo que existe. Então, quando Deus disse “Faça-se a Luz” a matéria informe recebeu as Formas específicas se diversificando em todo o universo conhecido sendo tudo criado de forma simultânea.

Os dias, nesse contexto, seriam a organização do conhecimento da criação na mente das criaturas Angélicas. O Anjo pode conhecer de duas formas: por iluminação Divina e Naturalmente. Esses seriam, respectivamente, a Manhã e a Tarde. Para exemplificar peguemos como exemplo o cavalo. O anjo conheceu primeiro no Verbo, por iluminação, o conceito de Cavalo antes de conhecer o Cavalo em si na natureza. Após conhecer no Verbo o Anjo Conhece o Cavalo naturalmente. Sendo esse um conhecimento menor e menos “luminoso “em relação ao outro ele é chamado de Tarde. Moisés, ao escrever o Gênesis, teria colocado essa organização nos dias da criação sendo esse o sentido Literal e a Criação de fato ocorreu no primeiro dia. Conforme veremos a seguir essa visão encaixa-se de forma assustadora com os conhecimentos físicos atuais.

A Relatividade e o Big Bang

Albert Einstein revolucionou a física com a sua Relatividade Geral que – embora não seja perfeita e é usada por pseudocientistas para defender absurdos- foi uma descoberta inovadora. Fugiria do escopo do trabalho demonstrar a Teoria em detalhes, então, vamos nos limitar a falar só as consequências dela. A Teoria da Relatividade afirma que grandes quantidades de massa causam deformações ou curvas no contínuo espaço-tempo. Para exemplificar essa curva no espaço peguemos o exemplo do Sol. Se observarmos uma estrela, sem o Sol estar próximo, veremos ela em um lugar, mas se a observarmos como Sol próximo a veremos em outro lugar, pois, como o Sol tem uma enorme Massa, ele curva o espaço. Já o tempo exemplificamos com o caso das pessoas que moram próximas ao nível do Mar. Por estarem mais próximas do núcleo da Terra, com grande quantidade de Massa, as pessoas próximas ao nível do mar sentem o tempo passar milésimos de segundo mais lento do que as pessoas que moram em altitudes mais altas devido a deformação no Tempo. Ademais, Einstein defendia que esse processo geraria ondas gravitacionais as quais são dobras no tecido do espaço-tempo formadas pelo movimento de qualquer objeto dotado de massa, assim como uma pedra atirada em um lago provoca perturbações em sua superfície. O problema é que estas ondas são tão pequenas que, para poderem ser detectadas diretamente com a tecnologia atual, é preciso que estes objetos sejam muito grandes e estejam se movendo a enormes velocidades, como a fusão de dois buracos negros.

Pegando muitos conceitos da Relatividade o Padre Georges Lemaître desenvolveu o que hoje é conhecido como Teoria do Big Bang. O Padre observou que, pela Relatividade, vemos que o tempo não é homogêneo em todo o universo nem o espaço é isotrópico- devido as deformações no contínuo espaço-tempo- chegando à conclusão que o universo não é estático e está se expandindo. Partindo disso, surgiu a ideia de que o Universo teria surgido em um estado contraído e extremamente quente- ao ponto dos átomos não conseguirem se formar- e, então, teria se expandido e esfriado dando a luz ao estado atual do Universo. Essa teoria foi, posteriormente, aperfeiçoada e, então, se desenvolveu a teoria do “Big Bang Inflacionário”. Essa teoria defende que, como o Universo era extremamente quente e contraído, para que pudéssemos ter estrelas, planetas, galáxias e mesmo nós, ele deve ter passado por um período de rápida expansão e consequente esfriamento, processo que ficou conhecido como “inflação”. Nessa inflação, todas as leis da física seriam abolidas por um mero instante e depois retornariam. Essa inflação causaria deformações no espaço-tempo contínuo o que deveria causar ondas gravitacionais, as quais foram encontradas pela equipe internacional de cientistas liderada por John Kovac, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, nos EUA. Segundo os cientistas, é possível ver nas medições as marcas das ondas gravitacionais geradas pela inflação na chamada radiação cósmica de fundo, o “eco” em micro-ondas do Big Bang, quando o Universo tinha meros trilionésimos de trilionésimos de trilionésimos de segundo de existência, ou um dividido por um e seguido de 37 zeros. É como se observássemos as ondas geradas pela pedra na água. Essas e outras evidências basicamente comprovam o Big Bang, mas o que os Papas falaram sobre a teoria? Pio XII disse, enquanto Doutor Privado, o seguinte sobre ela:

“ Realmente parece que a ciência moderna, olhando para milhões de séculos atrás, conseguiu se tornar testemunha daquele primordial Fiat lux, pelo qual do nada irrompe, com a matéria, um mar de luz e radiação, enquanto as partículas químicas dos elementos se separam e se reúnem em milhões de galáxias.” (…)

“…com a concretude própria das provas físicas, a contingência do universo e a fundamentada dedução sobre a época em que o cosmo saiu das mãos do Criador. A criação no tempo, então; e, portanto, um Criador: Deus! É essa a voz, ainda que não explícita e nem completa, que Nós pedíamos à ciência, e que a atual geração humana espera dela.”

– Discurso de Pio XII. 22/11/1951. Tradução: blog Tubo de Ensaio

Como se observa, a recepção foi bem positiva não só pelo Big Bang provar que o universo teve um início, mas também por ele quase tornar como certa a Necessidade de um Deus criador.

O Big Bang e a Relatividade na Criação

Vamos, agora, analisar essas teorias usando a visão da criação católica proposta por Santo Agostinho. Para o Santo, a Terra estaria informe e vazia antes do início da criação e, depois, teria se diferenciado. Analisando a Teoria do Big Bang vemos que isso bate com o Universo primordial extremamente quente e contraído. Esse Universo anterior seria menor que uma cabeça de alfinete, mas abarcaria tudo que existe no Mundo Material. Não podemos deixar de ver nessa criação um Reflexo de Deus. Deus é um Ser Simples no sentido de que ele não possui acidentes e não é composto sendo, em essência, todas as virtudes – Ele É a Justiça, a Misericórdia, o Amor etc. Deus seria como o Sol o qual transmite uma Luz Branca que ilumina os vitrais a qual se decompõem em várias cores, pois, assim como a Luz Branca sozinha e simples tem todas as cores juntas, Deus sozinho É todas as qualidades em seu Ser. O universo criado reflete o criador. Faz sentido o Universo ter começado de forma bem simples, menor que a cabeça de um alfinete, mas com potencial para ser tudo que existe materialmente e depois tenha se expandido revelando a beleza que continha. Podemos ver isso até mesmo na física em duas Leis que parecem contraditórias: Gravidade e a Inércia. A Gravidade parece forçar os corpos a se unirem enquanto a inércia os força a se afastarem. Se analisarmos sobre a ótica da criação veremos que a Gravidade representa a simplicidade- estado contraído inicial do universo onde todas as coisas estavam concentradas em um único ponto- do Universo e a inércia representa a demonstração de suas qualidades, pois se o Universo tivesse se mantido contraído e simples as criaturas não poderiam observar suas belezas. Assim, Gravidade e inércia demonstram que o universo, semelhante ao criador, é simples e abundante de belezas.

Voltando ao estado da Matéria inicial, nesse estado a grande quantidade de Massa não permitiria escapar o espaço e nem o tempo, segundo a Relatividade, sendo impossível uma expansão. Aqui a física entra num Terreno nebuloso, pois se o espaço estava dentro do Universo contraído o que havia “fora’’? e para onde nosso Universo atual está se expandindo? São coisas que confundem a cabeça de qualquer ateu que pensa que é fácil explicar todas as coisas do universo com ciência experimental que não pode explicar o antes do Big Bang.

Continuando, esse Universo contraído continha, em potência, capacidade de gerar tudo que existe, mas não era possível ele começar a expandir-se e diversificar-se, porque as suas próprias Leis o mantinham daquela forma contraído e extremamente quente. Agora, chegamos ao momento crítico que seria o “Fiat lux”, nesse momento, todas as leis da Física foram abolidas por breves milésimos de segundo e o Universo pode passar por um rápido resfriamento e expansão que a ciência chama de “inflação”. Essa inflação deforma o contínuo espaço-tempo e gera as ondas gravitacionais que vemos hoje. Em seguida, após esse breve período de abolição das Leis da física, elas retornam e o universo inicia seu processo de expansão. Assim, foi criado todo que existe e Deus vendo sua criação finalizada e criada instantaneamente, com todas as Leis e ordens a organizando, viu que tudo era “Muito Bom”. Somente o Senhor da Vida poderia ter suspendido as Leis da Física por um instante e, assim, permitido a criação. Essa “inflação” é uma pedra de tropeço para os ateus.

Conclusão

Com isso, concluímos que, tanto o Big Bang quanto a Relatividade encaixam-se nas explicações católicas da criação e, basicamente, confirmam a criação Divina de forma instantânea conforme defendia Santo Agostinho. Tal situação apenas demonstra que a ciência verdadeira e revelação não podem se contradizer

 

artigo do Professor Fábio Vanini na Montfort: http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/dies-unus-consideracoes-sobre-um-dia-da-criacao/

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