Os Pais da Igreja e a Assunção de Maria

Pergunta: Há alguma referência à assunção corporal de Maria à glória celeste nos primeiros cinco séculos de cristianismo?

Resposta: Sim. Entre os séculos II e III a tradição oral acerca da assunção corporal de Maria aos céus era registrada pela literatura apócrifa, como podemos observar por exemplo, no Liber Requiei Mariae, escrito nesse período [1]. Ora, muitos apócrifos possuem, segundo a expressão de São Jerônimo, um verdadeiro “ouro no lodo” [2], pois contêm, segundo Santo Agostinho “algumas coisas verdadeiras com muitas falsas” [3]. Este é o caso, por exemplo, dos apócrifos que tratam da Assunção de Nossa Senhora, uma vez que estes, ainda que repletos de exageiros (quando não heresias), contém em meio a todo este lodo, um verdadeiro “ouro”, isto é, a doutrina da Assunção de Maria, que a Tradição provou ser verdadeira ao ser conservada e ensinada ininterruptamente ao longo dos séculos pelo Magistério da Igreja.

Já no século IV, Santo Epifânio de Salamia afirmará que Maria “é como Elias, pois era virgem desde o ventre de sua mãe, permaneceu assim perpetuamente, foi assunta (analamba nomenos) e não viu a morte” [4]. Timóteo de Jerusalém, que segundo o Pe. Jugie e o Pe. Roschini viveu entre os séculos IV e V, também afirma isso: “A Virgem por isso permaneceu até hoje imortal, porque Aquele que habitou nela a transferiu para o lugar de sua assunção” [5]. O Sarcófago de Saragoça, também deste período, retrata possivelmente a Virgem Maria sendo puxada aos Céus na presença dos Apóstolos (ou seja, é possivelmente a primeira imagem que se tem registro da Assunção). São Gregório de Nissa, utilizando-se da passagem de 1 Coríntios 15:55-57 (que trata sobre a ressurreição dos corpos como um triunfo sob a morte), afirma que Maria igualmente já havia triunfado sob a morte, em uma possível referência à sua gloriosa assunção aos céus, embora ressalte que a morte tenha “também se aproximado dela”, o que pode ser um indício da doutrina oriental de sua dormição [6]. O mesmo afirma o Pseudo-Melito de Sardes [7] e o deixa implícito Santo Ambrósio [8]. Mais citações deste período são encontradas no estudo do Pe. Gabrielle M. Roschini, O.S.M., A Assunção de Maria nos cinco primeiros séculos da era cristã. Concluímos, portanto, haver uma forte Tradição nos primeiros séculos de cristianismo que indica que a Santíssima Virgem foi assunta aos céus, como ensina São João ao afirmar que ela recebeu “duas asas da grande águia” e “voou” para o lugar de seu retiro “fora do alcance” de Satanás (cf. Ap 12,14).

Gabriel Klautau

Referências

[1] cf. Stephen Shoemaker, ‘Death and the Maiden: The Early History of the Dormition and Assumption Apocrypha’, p. 65. E também Bellarmino Bagatti, et al., New Discoveries at the Tomb of the Virgin Mary in Gethsemane [Jerusalem: Franciscan Printing Press, 1975], p. 14; Bagatti, S. Pietro nella “Dormitio Mariae,” pp. 42-48; Ricerche sulle tradizioni della morte della Vergine, pp. 185-214.

[2] São Jerônimo de Estridão, Ad Laetam de institutione filiae, Ep. 107, 12; CSEL., 55, 303.

[3] Santo Agostinho de Hipona, Dei Civ. Dei. IV, 23, 4 ; PL. 41, 478.

[4] Santo Epifânio de Salamina, Panarion 79.5.2 (Holl and Dummer, eds., Epiphanius, vol. 3, 479).

[5] Timóteo de Jerusalém, Homilia sobre Simeão e Ana, PG 86,245C.

[6] São Gregório de Nissa, De Virginitate 13, PG 46,377.

[7] Pseudo-Melito de Sardes, Transitus do Pseudo-Melito 16, 2-17.

[8] cf. Pe. Gabrielle M. Roschini, O.S.M., A Assunção de Maria nos cinco primeiros séculos da era cristã.

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